Uma pesquisadora-detetive a serviço do conhecimento

Gilda de Mello e Souza inovou trabalho do crítico desde suas primeiras obras

O Estadao de S.Paulo

07 de setembro de 2017 | 00h00

Num texto sobre o método de análise crítica de Gilda Mello e Souza, a ensaísta Otília Arantes aponta um dos pressupostos dessa pesquisadora. ''''Gilda sempre valorizara, na interpretação das obras, aquilo que aparentemente era desimportante e que não aparecia de imediato numa primeira leitura ou a olho nu, os pequenos indícios a serem perseguidos, como as pegadas, por um caçador, ou os sinais característicos que despertam a imaginação de um detetive, de modo a decifrar o enigma que nos é proposto pela obra, fosse ela quadro, filme ou livro.''''Essa era qualidade presente em seu primeiro trabalho de fôlego, O Espírito das Roupas: a Moda no Século XIX, um estudo sobre as vestimentas escrito como tese de doutoramento em Ciências Sociais. Era uma ousadia, em 1950, que uma intelectual da primeira geração da Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras da USP tomasse um tema considerado fútil como objeto de análise. Publicado em 1987 pela Cia. das Letras, atualmente em 3ª edição, O Espírito das Roupas aponta a função social da moda para diferenciar as classes. E, como outros trabalhos dessa autora, tem o mérito de ter contribuído para aprimorar o método de pesquisa de futuros críticos de arte.Gilda Mello e Souza nasceu em São Paulo, em 1919, mas passou sua infância na fazenda Santa Isabel, de seus pais, em Araraquara. Deixou a fazenda para seguir seus estudos. De volta à capital, a convivência com o primo Mário de Andrade foi importante afetiva e intelectualmente. Mais tarde, ela vai debruçar-se sobre sua obra em livros como O Tupi e o Alaúde: uma Interpretação de Macunaíma e Os Melhores Poemas de Mário de Andrade, Seleção e Apresentação.Em 1941, Gilda Mello e Souza integra o grupo fundador da revista Clima, ao lado de intelectuais e amigos como Décio de Almeida Prado, Paulo Emílio Salles, Lourival Gomes Machado e Antonio Cândido, com quem se casa dois anos depois. Professora de Estética, ela foi responsável pela formação da maioria dos palestrantes, hoje prestigiados, que agora falam sobre ela no evento em sua homenagem. Gilda Mello e Souza morreu em dezembro de 2005. Há muito esgotado, o livro Exercícios de Leitura, que traz o ensaio Teatro ao Sul, no qual ela analisa A Moratória, de Jorge Andrade, será relançado brevemente.A produção do Tapa para a Moratória estréia sexta às 20h30 e será reapresentada no sábado, no mesmo horário, e no domingo e na terça às 19h30. Os ingressos vão de R$ 4 a R$ 10. Interessados em acompanhar a palestra O Moderno Teatro Brasileiro, do professor Roberto Schwarz (sexta-feira, 20 horas), que antecede a estréia da peça, devem se inscrever pelo telefone do Sesc Araraquara, (16) 3301-7500 (a entrada para a palestra é franca).

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