Uma pedreira de vontades e forte resistência política

Novo grupo paulista reencena obra-prima do dramaturgo Jorge Andrade

Crítica Jefferson Del Rios, O Estadao de S.Paulo

17 de agosto de 2009 | 00h00

Em Pedreira das Almas, uma cidade resiste à ocupação policial-militar enquanto uma família honra seu morto a todo custo. Jorge Andrade, o autor, quis escrever uma peça com contornos da tragédia grega, e conseguiu. Vale o registro porque muitos afundaram na empreitada, o que confirma as qualidades do notável dramaturgo paulista (1922-84) que o Grupo das Dores do Teatro, de alguma forma descendente do Tapa, e fiel à sua sólida linha estética, foi resgatar de um semiostracismo desconcertante e desafiador. Ainda se vai estudar a resistência do público teatral, urbano por definição, aos temas rurais. No cinema, de Pagador de Promessas a Baile Perfumado, o assunto passa. No palco, não (fora exceções bem específicas, algum regionalismo gracioso/musical, poético e/ou picaresco.)Nesta obra, o enredo abrange duas vertentes: a da insubmissão política de regiões brasileiras, em épocas diversas, ao 2º Império. No caso, a quizília, em 1842, envolvia posições e interesses dos dois partidos dominantes: o Conservador e o Liberal. Divergência de elites de São Paulo e Minas tendo como massa de manobra alguns bem-intencionados de sempre e povo miúdo, e, abaixo dele, os negros escravos. Embora envolva nomes muito citados, como o padre Diogo Feijó, Teófilo Otoni e Caxias, pensando bem, quem se lembra disso? A desmemória nacional mataria o texto de Jorge Andrade no nascedouro não fosse ela forte painel humano com elementos trágicos. O poeta falou mais alto, sobretudo na segunda vertente da peça: a do esgotamento do ciclo de ouro e diamante em Minas. No declínio econômico do minério está uma das origens da expansão e apogeu cafeeiro de São Paulo, que teve em Andrade seu melhor artista (como, antes, Jorge Andrade no ciclo do cacau, Bahia, e José Lins do Rêgo, da cana-de-açúcar, Paraíba). Pioneiros vindos da região de Alfenas, desde o século 19, criaram municípios paulistas como Mineiros do Tietê.A ação de Pedreira das Almas condensa, portanto, duas linhas de força: a guerra civil, política, e a de temperamentos, psicológica. O comandante do Império, com ordem de achar um foragido mesmo que reprima a população que o esconde, e a fortaleza moral, com seu viés autoritário, de uma matriarca com traços de Bernarda Alba, de Lorca. As filhas, familiares e outras mulheres compõem o coro que ecoa e comenta os acontecimentos. Teatro solene do título aos diálogos que parecem cânticos de igreja (música de Fernanda Maia) e pronunciamentos históricos, o que exige maleabilidade e perícia do encenador e do elenco. Brian Penido Ross, além de ser um dos atores fundamentais do Tapa, tornou-se um diretor seguro dentro dos mesmos parâmetros estéticos exigentes estabelecidos nesse núcleo artístico por Eduardo Tolentino de Araújo. São 25 intérpretes em afinada sincronia de movimentos e coesão dramática. Mas, em algum breve momento há certa confusão no quem é quem quando os papéis se alternam (soldados/moradores). Duas atrizes carregam as maiores responsabilidades. Zeza Mota, que usa sua experiência para compor Urbana, a líder da comunidade, e Paloma Galasso, bonito talento que se afirma como a filha apaixonada pelo homem perseguido pelo governo. Assim, com impulso e nitidez, a poética cênica de Jorge Andrade volta a luzir nas vozes e vontade de jovens criadores do teatro surgido recentemente na Universidade Anhembi Morumbi e que chegam ao profissionalismo.

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