Uma página sombria da história italiana

Sangue Pazzo enfoca a violência do fascismo, mas com certo ar de novelão

Luiz Carlos Merten, Cannes, O Estadao de S.Paulo

21 de maio de 2008 | 00h00

No seu belo elogio a Manoel de Oliveira, durante o tributo ao grande diretor português, o presidente do Festival de Cannes, Gilles Jacob, disse que existem autores capazes de representar todo um povo. Oliveira seria, ou é, a representação dos portugueses. Fazendo algumas comparações, Jacob disse que Pedro Almodóvar é sucessor de Luis Buñuel e Carlos Saura como encarnação da alma espanhola. No caso da Itália, ele disse que, nos anos 60 e 70, o país tinha simplesmente os maiores diretores do mundo - como Jacob não citou nomes, você pode imaginá-los: Luchino Visconti, Federico Fellini, Michelangelo Antonioni, Pier Paolo Pasolini etc. - e hoje... A reticência verbal do próprio presidente do festival aponta para o que parece uma mediocrização do cinema italiano atual.O elogiado Gomorra, de Matteo Garrone, e Il Divo, de Paolo Sorrentino, que ainda falta ser exibido, ambos na competição, parecem desmentir a fala de Gilles Jacob, mas ela se aplica perfeitamente a Sangue Pazzo, de Marco Tullio Giordana, que integra a seleção de outra mostra, Un Certain Regard. Na segunda-feira à noite, Giordana subiu ao palco da Sala Claude Debussy para lembrar que apresentara ali mesmo La Meglio Gioventù, que na França se chamou Nos Meilleures Années, Nossos Melhores Anos. Anteontem, ele disse que estava vindo mostrar os piores anos da Itália.Sangue Pazzo reconstitui uma página sombria da história e do próprio cinema italiano. Durante a 2ª Guerra, uma diva e seu marido ator (e diretor), Luisa Ferida e Osvaldo Valenti, acusados de praticar crimes hediondos com os fascistas, foram sumariamente fuzilados. Embora interessante como olhar sobre a corrupção e a violência do fascismo, o filme possui uma insatisfatória entrevista de novelão, mas Monica Bellucci, definida pelo próprio diretor artístico do festival, Thierry Fremaux, como grande e bela, a maior (estrela) e a mais bela, quase vale o sacrifício.

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