Uma outra margem do Rio

Volume reúne a obra-prima Desabrigo, outras novelas e um conto inédito do carioca Antônio Fraga

Francisco Quinteiro Pires, O Estadao de S.Paulo

27 de junho de 2009 | 00h00

Os idiotas, os analfabetos, as prostitutas, os malandros, a ralé mais baixa, todos eles foram chamados a falar quando Antônio Fraga publicou Desabrigo pela editora Macunaíma, em 1945. Um livro povoado por gírias e de sintaxe experimental, nada parecido com a literatura regionalista, sua novela de estreia foi considerada obra-prima por reconhecidos intelectuais, entre eles Oswald de Andrade, Carlos Drummond de Andrade, Mário Pedrosa e Vinicius de Moraes. Mas os elogios não impediram que o livro ocupasse, posteriormente, o mesmo lugar do seu autor autodidata - a margem.Um dos integrantes do Grupo Malraux, o carioca Antônio Fraga (1916-1993) integrou uma geração abalada pela 2ª Guerra Mundial. Nos três capítulos da novela Desabrigo, agora reeditada pela coleção Sabor Literário, da José Olympio - em um volume que traz, ainda, um conto inédito, Crepuscular, incluído na seção Outras Narrativas -, um personagem apresenta a confusão vigente no Brasil, àquela altura integrante de um mundo crescentemente polarizado, no princípio da Guerra Fria. A trama revela o cotidiano violento de oscar pereira, vulgo desabrigo (os nomes próprios em minúscula ressaltam a inferioridade dos personagens na escala social.) Metido em bares e jogos de azar, desabrigo padece uma raiva silenciosa por durvalina, que prefere paquerar o cobrinha. Todo o peso das mazelas sociais se faz sentir: Fraga mostra que a história brasileira é estruturada em ciclos que, inevitavelmente, se repetem. desabrigo está condenado a se virar para sempre no andar de baixo da sociedade. Em sua literatura, que abre caminho para Plínio Marcos, João Antônio, Paulo Lins, Ferréz e outros, Antônio Fraga autorizou a entrega da plebe às especulações metafísicas. Coisa que só podia ser feita pelo discurso oficial do homem bem vestido e barbeado. É como se o Brasil em mangas de camisa mostrasse o seu conhecimento de mundo ao Brasil engravatado. Com Desabrigo, Antônio Fraga deu permissão, ao menos ficcional, para que o homem do povo pudesse ser dono de uma alma. Por meio de um texto polifônico, o indivíduo da periferia usou a própria linguagem para dialogar com o acadêmico. Fraga colocou a gíria carioca da região do Mangue e da Lapa para circular no papel impresso, depois da produção pioneira de sambistas como Noel Rosa, Wilson Batista e Geraldo Pereira, que reproduziram musicalmente as falas dos excluídos.O segmento Outras Narrativas é composto de duas novelas - Acalanto (1979) e O Louva-a-Deus (1957) - e quatro contos: O Galante Jacaré (1953), O Estofo dos Sonhos, Crepuscular e O Mensageiro da Noite, estes sem indicação da data em que foram escritos. Organizados por Maria Célia Barbosa Reis da Silva - professora universitária, biógrafa de Fraga e guardiã do seu espólio literário -, os escritos seguem os rascunhos do autor. Com eles, são publicadas Um Autor Maldito ou O Joyce do Mangue?, uma reportagem de Maria Amélia Mello, veiculada na revista IstoÉ, em 1978, e uma entrevista de Zuenir Ventura e Maurício Stycer, divulgada no Jornal do Brasil, em 1985. O pingue-pongue resgatou Fraga do ostracismo, em Queimados, a 50 km do Centro do Rio: ofereceram-lhe até um emprego na Legião Brasileira de Assistência. O material jornalístico e, claro, o conto inédito, diferenciam o livro da José Olympio e o esgotado Desabrigo e Outros Trecos (Relume Dumará, 1999).Acalanto usa a técnica do monólogo interior para narrar o crescimento de uma criança - Fraga dizia ser essa a sua biografia. O Louva-a-Deus homenageia Franz Kafka. O Galante Jacaré fala de Hermenegildo, malandro regenerado pelo casamento com Estela, e enfatiza as transformações urbanas. A narradora de O Estofo dos Sonhos volta no espaço e no tempo para perceber as ligações entre passado e presente. Crepuscular registra, num entardecer, as mudanças na natureza provocadas por homens que desejam alterar os rumos da história. Em O Mensageiro da Noite, um menino de 13 anos atua como portador de mensagens. Com medo da noite, ele tem de entregar, no Natal, um telegrama tão sombrio quanto a escuridão daquele momento. O garoto rasga a carta antes de ela chegar ao destinatário.

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