Uma ópera-bufa com fantasma de mãe castradora

Considerado pelo autor argentino seu melhor livro, o romance perturba

Entrevista com

Antonio Gonçalves Filho, O Estadao de S.Paulo

15 Fevereiro 2008 | 00h00

De todos os livros do argentino Tomás Eloy Martínez, A Mão do Amo (1991) é o que lhe parece ser o mais bem acabado. Ou pelo menos parecia até o lançamento de O Cantor de Tango (2004), novela com a qual guarda diversos pontos em comum, sendo o principal deles a excepcional voz de um homem. Em A Mão do Amo, esse homem de voz absoluta, capaz de imitar os trinados de Lily Pons e os agudos do contratenor Alfred Deller, é vítima de uma mãe castradora. Já em O Cantor de Tango, o homem da voz sobrenatural é um mito igualmente despedaçado pela realidade. Em ambos os casos, a voz única, inimitável, sucumbe ao peso da história - particular, no caso de Carmona, o protagonista de A Mão do Amo, e pública, no caso de Julio Martel, de O Cantor de Tango. Esse barítono de voz viril, fraseado delicado e nome de conhaque, que parou de cantar em 1959, aos 36 anos, é o personagem procurado sem sucesso por Bruno Cadogan, alter ego de Martínez em O Cantor de Tango. Nele, Martínez/Codogan empreende uma inútil peregrinação por Buenos Aires em busca de uma voz que desapareceu como a paisagem portenha da juventude de Borges. Ao contrário do que faria mais tarde em O Cantor de Tango, Tomás Eloy Martínez, ao criar Carmona, ainda não estava interessado em resumir a história da Argentina partindo do (melo)drama de seus mitos - como em Santa Evita. Mais que uma vítima do poder da alegoria (da mãe pátria), Carmona é sufocado pela onipresença da arquetípica mãe castradora (ou Mãe com maiúscula, sem identificação nem origem, como prefere o escritor). ''''Mãe'''' é, como nas primeiras páginas de O Estrangeiro de Camus, uma ausência no prelúdio desse drama operístico sobre a derrocada de um homem, conduzido à depressão, ao alcoolismo e à loucura por conta de suas alucinações com o fantasma da mater dolorosa. Aficionada pelas faculdades paranormais de Swedenborg e intrigada com a forma do paraíso, a mãe da Carmona adora gatos, além do filósofo e místico sueco. Considera-os criaturas divinas, vítimas de cristãos supersticiosos. Para seu azar, Carmona, após a morte da mãe, herda meia dúzia deles. São os gatos que conduzirão o contratenor às portas do ''''paraíso'''', após serem sexualmente assediados e afogados pelo novo amo numa banheira. A demência de Carmona é irritante - e exagerada - como a letra de um tango edipiano de Julio Navarrine, mas o talento de Martínez não desperdiça relações filiais em lágrimas. Faz do desejo de mimese uma força vulcânica para apagar os traços desse amor incestuoso que promete ao filho um paraíso ilusório em troca da voz que a mãe deseja apenas para si. E vai além nessa viagem xamânica borgiana em que a palavra é manipulada ao paroxismo em busca de insuspeitadas relações, como na lição inaugural em que mãe, ao ensinar o filho a ler, força-o a jogos perversos, como associar o verbo amar à ''''mão do amo''''. Martínez sempre desconfiou do poder da palavra. Com justíssima razão.

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