Uma luz sobre a cultura japonesa

Mostra fotográfica abre uma janela para as transformações que estão moldando o Japão do século 21

Tonica Chagas, Nova York, O Estadao de S.Paulo

18 Agosto 2008 | 00h00

Desde meados dos anos 90, quando foi atingido por uma crise econômica quase tão forte quanto os terremotos a que sua geologia está sujeita, o Japão vem passando por grandes mudanças. Elas se refletem, é claro, nas direções que estão tomando a cultura e a arte do país. A fotografia japonesa atual que sintetiza essas transformações é focalizada na exposição Heavy Light: Recent Photography and Video from Japan, que começa pelo International Center of Photography (ICP), em Nova York, uma turnê por museus americanos. Representada pelo trabalho recente de 13 fotógrafos, Heavy Light sublinha o poder imaginativo e a capacidade de invenção visual dos japoneses. A relação entre natureza e homem, o reexame da tradição do país, a identidade pessoal e a infância tomada como um ícone são temas que se repetem sob diferentes ângulos nas cerca de 80 imagens, que transmitem aspectos de uma cultura singular mesmo para aqueles que a constroem. Quase todos os fotógrafos selecionados para a mostra estão na faixa dos 40 anos de idade. Yukio Nakagawa, de 80 anos, é exceção mas, de certa forma, ele também é um fotógrafo emergente. Só recentemente as fotografias que ele faz para perenizar seus trabalhos de ikebana passaram a ser apreciadas pela própria qualidade delas. Nakagawa surpreende com naturezas-mortas às vezes engraçadas, às vezes grotescas, com títulos como Espada do Rancor ou A Ilha da Morte, com tulipas murchas que lembram extraterrestres, pétalas vermelhas que compõem pequenos túmulos, ou delicadas composições em homenagem a outros artistas. O bonsai, outra arte japonesa baseada na botânica, é um dos tópicos favoritos do multimídia Makoto Aida, que vê o processo de miniaturização de árvores como uma espécie de "perversão ecológica" proposital. Nos seus bonsais, Aida aponta também para outra perversão, a sexual: as hastes das plantas terminam em cabecinhas de bonecas de olhos grandes, referência às notórias fantasias eróticas que os japoneses têm com garotas adolescentes. Tsuyoshi Ozawa, outro multimídia, estimula a compreensão de culturas e raças com verduras e legumes, numa série em que alimentos usados em pratos típicos de povos diferentes são moldados como armas. Uma das fotos de Arma Vegetal foi criada no Rio de Janeiro, com ingredientes de um cozido. Características da paisagem urbana são enquadradas e ampliadas por Naoya Hatakeyama, Naoki Kajitani, Risaku Suzuki e Asako Narahashi. O consumo da natureza e o crescimento das cidades lembram pinturas cubistas e abstratas nas séries de Hatakeyama sobre rios, explosões em pedreiras de calcário e fábricas de cimento. Em JPEG, o formato mais comum de compressão digital, Kajitani fotografou o que ele define como "o Japão real", representado nas imagens berrantes e espalhafatosas de propaganda visual em pequenas cidades - uma versão comprimida dos billboards de Tóquio. As transformações na paisagem do país têm sido registradas por Suzuki na série em andamento Kumano, com fotografias tomadas nas viagens que ele faz entre Tóquio e sua cidade natal, Shingu, na região de Osaka. Em Meio Desperta e Meio Dormente na Água, de Asako, a arquitetura e as paisagens costeiras do Japão parecem as últimas imagens vistas por alguém que está se afogando. GENTE ESTRANHA O modo de vestir, a linguagem corporal e as expressões nas fotos de Hiroh Kikai e Masayuki Yoshinaga são tratados visuais sobre a psiquê do país de quase 130 milhões de habitantes e que é a terceira maior economia do mundo depois dos Estados Unidos e da China. Kikai formou-se em filosofia em 1968 e começou a fotografar no ano seguinte, com uma Hasselblad 500CM comprada com dinheiro emprestado por um de seus professores. É a mesma máquina que ele ainda usa para fazer retratos instantâneos em preto-e-branco de gente estranha que passa pelo distrito de Asakusa, em Tóquio. As fotos têm legendas suscintas como "um homem que diz trabalhar por conta própria" ou "um velho com olhar penetrante". Yoshinaga, por sua vez, há mais de dez anos documenta em vídeo e fotografa subgrupos culturais organizados como os bosozoku (gangues de motociclistas), jovens membros da Yakuza e adolescentes góticas e fashionistas. Ele próprio um ex-bosozoku, o fotógrafo vê nesses subgrupos a mesma estrutura hierárquica e códigos de comportamento que caracterizam a sociedade japonesa de forma geral. A complexidade da mulher naquela sociedade é abordada com sobreposições de significados nas composições das fotógrafas Tomoko Sawada, Midori Komatsubara e Miwa Yanagi. Tomoko é a única modelo em séries como Dias de Escola, na qual repete o formato tradicional do retrato de turma de estudantes, que no Japão é feito duas vezes por ano, com uniformes de inverno e de verão. Com penteados, posturas e expressões faciais diferentes, Tomoko sublinha o peso do senso de igualdade, do anonimato e da busca de identidade. Em Contos de Fadas, Miwa reinterpreta historinhas infantis ocidentais, como as de Rapunzel, Cinderela ou Chapeuzinho Vermelho. Mas nas suas versões as meninas não têm nada de coitadinhas e são capazes de crueldade igual ou pior que a das megeras dos contos originais. Subgênero dos quadrinhos japoneses, os mangás, mas pouco conhecido no Ocidente, o yaoi trata de histórias de amor entre rapazes. Produzido e consumido quase que exclusivamente por mulheres, ele é o tema de Midori em Santuário. A ambigüidade sexual dos dez personagens que vivem sua história numa escola particular é resultado, em parte, da técnica digital usada pela fotógrafa para "colar" cabeças de meninas no corpo de meninos. À entrada das galerias onde Heavy Light é exibida no ICP está uma instalação completa de Kenji Yanobe, que se inspira nos mangás e desenhos animados de sua infância. Com senso de humor, ele reflete sobre questões da era pós-bomba atômica, uma tragédia que só o seu país teve a desgraça de experimentar. Vários trabalhos dele exploram a idéia de sobrevivência num mundo apocalíptico. Em Cinema Azul na Floresta, Torayan, um boneco de ventríloquo que Yanobe usa em seus trabalhos, veste um macacão atômico igual ao que o artista usou numa performance que fez em Chernobyl, em 1997. Dentro do cineminha que completa o quadro, Torayan aparece com o pai de Yanobe, um ventríloquo amador que, com a ajuda de filmes americanos de defesa civil produzidos na década de 50, ensina-lhe o que fazer em caso de desastre atômico. Alguns dos fotógrafos que participam de Heavy Light têm livros publicados que já ultrapassaram as fronteiras do Japão e os tornaram conhecidos na Europa. A maioria deles, porém, tem seu trabalho visto publicamente pela primeira vez num país do lado de cá do Atlântico. A luz pesada que emana dessa produção é uma janela para as transformações culturais que estão moldando o Japão do século 21.

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