Uma lenda da ópera nas ruas de São Paulo

Parceiro de Callas, o tenor peruano Luigi Alva passeia pela cidade e é juri de concurso de canto

Entrevista com

João Luiz Sampaio, O Estadao de S.Paulo

03 de abril de 2009 | 00h00

Quem é esse senhor de expressão maravilhada, observando atento a torre do relógio da Estação Júlio Prestes? Na manhã de quarta-feira, ele provavelmente passaria despercebido. Mas, se em um efeito de edição em tempo real, o cenário do vai e vem do centro da cidade fosse trocado por um palco de ópera... Agora sim, aquele senhor é ninguém menos que Luigi Alva, o tenor ligeiro peruano que, nos anos 50 e 60, foi estrela do Scala de Milão, parceiro de Maria Callas em algumas de suas principais gravações.Aos 82 anos, Alva está em São Paulo como jurado do Concurso Maria Callas. Deu master classes, assistiu às provas eliminatórias da competição, cuja final será realizada hoje em Jacareí, no interior do Estado. Na quarta, de folga, aproveitou para fazer turismo pelo centro, onde esbarrou com a reportagem do Estado. "Estou contente de voltar a São Paulo. E o nível do concurso também me alegrou. É importante que iniciativas como essa unam os artistas latinos e valorizem a tradição do canto por aqui." E o que achou das aulas? "Quando se nasce com boa voz, bom diafragma, caixa harmônica ideal, o jovem pode se considerar um escolhido. Mas, como um atleta, precisa treinar seu instrumento e encontrar o repertório ideal, a melhor maneira de utilizá-lo. O que acontece muitas vezes é que o jovem se enamora da própria voz e esquece que é o público que tem de gostar dele. É preciso um bom guia para mantê-lo no caminho."Para Alva, esse guia foi uma dama da sociedade e agitadora cultural de Lima, Rosa Mercedez de Morales. Em meados dos anos 40, ele, fascinado pela Marinha, completava seu terceiro ano como cadete quando um amigo de seu pai o ouviu cantar e o levou a d. Rosa. "Acho que cantei Granada ou algo assim e ela me disse: ?Seu futuro não está na Marinha mas, sim, no canto.? E eu acreditei", ele conta, rindo. Pouco depois, conseguiu emprego em uma rádio, onde cantava duas vezes por semana. "Comecei a ganhar um pouco de dinheiro, deu para comprar meu primeiro carrinho. E então fui convidado para cantar uma zarzuela, Luisa Fernanda. Gostei muito do palco."Confiante, entrou para um concurso latino-americano - cada país indicaria um cantor que viajaria ao Rio para as finais. O prêmio? Um ano de estudos na escola de canto do mítico Scala de Milão. "Não fui nem selecionado." Mas partiu para a Itália mesmo assim. "Comprei uma passagem de navio, na terceira classe, porque não havia uma quarta. Cheguei a Milão e procurei um rapaz que conheci durante a viagem. Ele me levou ao Scala. Para mim, era algo mágico o que acontecia. E eu não falava italiano, só o italiano da ópera, meio rebuscado, se alguém dizia ?nos vemos amanhã?, eu respondia: ?Sim, amanhã, antes que surja no céu a aurora? (risos). E, depois de passar por alguns professores, comecei a estudar com um bom maestro, que me deu lições técnicas preciosas. Até que um dia me procurou o senhor Confalonieri, na época diretor da Academia do Scala, e me convidou a estudar com ele. Aceitei na hora."Um ano depois, em dezembro de 1955, na ópera Il Matrimonio Segreto, ele faria sua estreia oficial na Itália - noite histórica para o teatro do país, pois marcou a inauguração do Piccolo Scala, espaço para ópera menores da instituição; e também para Alva. "Depois da apresentação, um senhor bateu na porta do meu camarim. Afirmou ter gostado da ópera e então se apresentou: era o maestro Carlo Maria Giulini", ele diz, arregalando os olhos e erguendo os braços. Para encurtar a história: três meses depois, ele fazia, com Giulini, sua estréia no palco principal do Scala, em O Barbeiro de Sevilha. Ao seu lado, no elenco, o barítono Tito Gobbi e a soprano Maria Callas.Alva entrava, assim, no grupo de ouro da ópera italiana de sua época. "Éramos uma turma animada, que brincava muito e gostava de cantar junta", ele lembra. E Callas? "Fala-se muito da diva com rompantes de estrelismo, mas não foi essa Callas que conheci. Minha colega de palco era muito séria e profissional, sempre a primeira a chegar aos ensaios, nunca poupando a voz, sempre exigindo dos outros a mesma dedicação. Nunca a vi dando menos que 100%. E isso foi uma lição valiosa para mim. Claro, ela não gostava nada se durante uma récita o tenor fosse mais aplaudido do que ela (risos). Mas era uma grande profissional." Entre os diretores, diz ter aprendido com Giorgio Strehler e Franco Zeffirelli a importância de saber atuar.Alva se aposentou no início dos anos 80, "sem traumas". "Aqui no fundo, sabemos quando é hora de parar. Mas vivi uma bela carreira, ajudado por Deus. Nunca me faltaram oportunidades, cantei nos maiores palcos de ópera e tenho lembranças especiais, como a inauguração da sede da Filarmônica de Berlim, a Nona de Beethoven com Herbert Von Karajan. E pude gravar praticamente todo o meu repertório, Donizetti, Rossini, algum Verdi, e o grande maestro, Mozart." Hoje, ele se divide entre Lima, onde dirige uma companhia de ópera, e Milão, onde é professor na mesma academia que o acolheu cinco décadas atrás. Não tem arrependimentos. Pergunto a ele: caso fosse possível escolher um papel para interpretar no palco, adequado ou não à sua voz, qual seria? "Um que cantei. Werther, de Massenet. Eu me identifiquei muito com o fervor romântico do personagem. Mas, pena, cantei-o em italiano. Gostaria de ter feito no original em francês. Mas não gasto tempo pensando nisso."

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