Uma janela aberta para a intimidade da vida na caserna

Esse território ainda pouco explorado ganha primeira aproximação com PQD

Crítica Luiz Zanin Oricchio, O Estadao de S.Paulo

07 de dezembro de 2007 | 00h00

Com PQD, Guilherme Coelho (diretor de Fala Tu) abre uma pequena fresta para um universo tabu do audiovisual brasileiro contemporâneo - a realidade interna das Forças Armadas. Na verdade, PQD acompanha a vida da caserna por um viés muito particular, o dos recrutas da 3ª Companhia do 25º Batalhão da Brigada Pára-quedista. Veja trailer do filme PQD, de Guilherme coelhoO documentário brasileiro, em plena efervescência (beneficiado pelo barateamento das novas tecnologias), tem retratado a vida nacional em praticamente todos os seus aspectos. A vida militar havia, até agora, ficado à margem, e por razões de fácil compreensão. Primeiro, porque a memória da ditadura ainda é viva e o papel das Forças Armadas na história contemporânea talvez tenha desencorajado os cineastas. Segundo, os assuntos internos dos militares não são franqueados com facilidade ao, como eles dizem, olhar do ''''público externo''''. O fato de agora aparecer um documentário como PQD é resultado de uma vida democrática que se tornou rotineira. Curiosamente, outro documentarista, Evaldo Mocarzel, registrou a mesma corporação em outro filme, Brigada Pára-quedista, que será lançado no próximo ano.Mocarzel enfocou os oficiais; PQD, os recrutas. O que transforma o trabalho de Guilherme Coelho num estudo sobre expectativas. Quem procura a Brigada são os jovens da classe baixa carioca, que vêem na carreira militar uma alternativa à falta de perspectivas oferecida pela vida civil.Tornar-se pára-quedista não é tarefa das mais fáceis e, assim, somos convidados a acompanhar a dura rotina diária, os treinamentos físicos, a disciplina, o relacionamento com colegas, etc.Mas o mais interessante é o retrato que o documentário traça sobre determinada realidade brasileira e, ao mesmo tempo, desfaz alguns dos preconceitos da classe média intelectualizada, acostumada a ver apenas opressão lá onde os mais pobres talvez enxerguem uma saída para sua condição de vida precária. O filme segue 70 recrutas durante um ano. Por trás do discurso patriótico típico da caserna, procura entrever alguma coisa das contradições do País e da maneira como elas se expressam no segmento militar. Mas, claro, os aspirantes figuram em primeiro plano e a instituição fica como pano de fundo. Mesmo assim, pode-se ler alguma coisa a respeito dela. É um primeiro passo. Outros devem vir.

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