Uma iluminada Idade Média

Dois livros de Jacques Le Goff mostram uma continuidade entre o período medieval e o Renascimento

Elias Thomé Saliba, O Estadao de S.Paulo

18 de maio de 2008 | 00h00

É quase impossível um bom conhecimento da história medieval sem passar por alguns livros de Jacques Le Goff. Suas obras se tornaram essenciais para se esboçar um quadro geral da época e obrigatórias no que se refere à cultura e ao imaginário medievais. Para quem ainda não leu nada de Le Goff, dois lançamentos recentes constituem sínteses bastante acessíveis - realizadas pelo próprio historiador - dos seus livros mais notáveis: Uma Longa Idade Média, um conjunto de artigos e entrevistas publicados em revistas especializadas entre os anos de 1980 e 2004, e A Idade Média Explicada aos Meus Filhos, que fornece aos leitores, sob forma de um diálogo didático, valiosíssimas aulas sobre os itens mais importantes da história medieval. E toda aula deve começar pelo que se considera óbvio: aqueles grandes recortes de tempo que acompanham as lentas mutações da história. Ao contrário do que ainda se propala em muitos manuais, Le Goff insiste numa "longa" Idade Média, que não acaba no fim do século 15, mas avança para o século 16: não há ruptura no Renascimento, já que o perfil desse movimento repete muito da ebulição cultural do mundo carolíngio no século 12, assim como do renascimento das cidades medievais no século 13. O historiador acredita que este extenso universo medieval não é nem tão sombrio como queriam os humanistas ou filósofos das Luzes, nem tão dourado ou lendário como imaginavam os românticos ou os católicos do século 19. Como todas as épocas da História, a medieval foi feita de sombras e de luzes, embora Le Goff reconheça: suas obras revelam mais a parte iluminada e criativa da cultura medieval. Apesar de um dos livros, pelo seu próprio título, buscar o público infantil, é quase garantido que será de grande interesse para todos, já que não é sempre que um historiador como Le Goff - hoje com seus 84 anos - se mostre disposto a responder de forma tão direta e concisa. Na Idade Média, as pessoas viviam o tempo todo em função da religião? Supondo-se as diferenças entre os imperadores e o rei, quais as qualidades ideais de um bom chefe de Estado no ambiente político medieval? Por que a biografia de São Francisco de Assis é importante para se conhecer o imaginário medieval? Qual o estatuto do humor e do riso numa cultura fortemente marcada pela rigor da culpa e do pecado? Para todas essas questões - às quais os historiadores só admitem responder através de longas explanações, quando não em livros inteiros - Le Goff tem o cuidado de não esconder conflitantes pontos de vista sobre o passado, elaborando respostas concisas - mas atenuadas - colhidas na informalidade de uma conversa e que ocupam, não raro, algumas poucas linhas. Nas conversas, ele também revela elementos importantes de sua própria formação: além da leitura dos romances de Walter Scott, fonte de inspiração juvenil pela história, ele deixa escapar que o retrato mais fiel no cinema sobre a Idade Média foi Lancelote do Lago (1974), de Robert Bresson. A cristandade medieval - que desapareceu no século 15 - foi a era da culpa e do recalque, mas também ensinou um uso esclarecido e humanista da religião, que demarcou os tempos e os dias dos homens e mulheres, transformando a crença na eternidade num dos poucos universais genuínos da cultura ocidental. A biografia de São Francisco pode ser vista como um sismógrafo das tensões e das angústias humanas na construção deste universal inerente à cristandade. As tensões vinham, por exemplo, da determinação eclesiástica que condenava o riso e a festa. No riso, o homem revelava sua inferioridade em relação a Deus (os evangelhos afirmam que Jesus nunca riu) e sua superioridade em relação a outros seres vivos (os animais não riem). São Francisco transforma este riso reprimido em ideal de espiritualidade e em comportamento típico da piedade franciscana, praticada pelos alegres "jograis de Deus". Reis e imperadores também não poderiam nunca se contentar com o ideal daqueles que concentram todos os poderes, mas sobretudo, no paradigma daqueles homens imbuídos da graça divina, concentrando em si tanto as virtudes quanto os pecados. Em sociedades que embrulhavam o medo e a esperança num mesmo pacote, quebras éticas dos governantes eram passíveis de um julgamento cósmico e todos os súditos, sem exceção, viam-se como moralmente culpados. Das sangrentas cruzadas a inúmeros episódios da vida de São Luís, Le Goff resume com extrema simplicidade exemplos já analisados em seus livros. E demonstra mais uma vez que, ainda quando não haja a mais remota possibilidade do passado servir de lição, ainda assim resta sempre aquela última alternativa de ele servir como exemplo. Elias Thomé Saliba é historiador, professor da USP e autor, entre outros, de As Utopias Românticas

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.