Uma HQ nos abismos da memória

Valsa com Bashir, versão quadrinizada do filme, ingressa no fino time dos gibis de jornalismo investigativo

Jotabê Medeiros, O Estadao de S.Paulo

21 de março de 2009 | 00h00

Quando foi que os quadrinhos se tornaram jornalismo investigativo?As referências históricas dessa virada são muitas: Maus, de Art Spiegelman (1991); Palestina, de Joe Sacco (1993); Persépolis, de Marjane Satrapi (2007). Sem contar o magnífico trabalho O Fotógrafo, de Emmanuel Guibert, Frédéric Lemercier e Didier Lefèvre (2003).Todas essas histórias em quadrinhos eram parte memória, parte revisão histórica; parte narrativa gráfica, parte um híbrido de desenho, fotografia e colagem. Todas com um fundo profundamente humanista e com um pano de fundo de reexame da História.Valsa com Bashir (L&PM Editores), uma graphic novel do israelense Ari Folman e David Polansky, é o mais novo exemplar desse gênero híbrido e vigoroso. Fez o percurso inverso de Persépolis: sendo um premiado filme de animação, selecionado para Cannes e concorrente ao Oscar, transformou-se numa HQ igualmente impactante, recém-lançada no Brasil.Ari Folman, que dirige o filme e narra os acontecimentos em sua própria voz, foi soldado no Líbano na guerra de 1982. Depois, virou cineasta das forças armadas e um dia foi mandado a um procedimento de exame psiquiátrico. Descobriu que sua memória apagara deliberadamente boa parte do que vivera no campo de batalha. Dali nasceu a ideia do filme.Em 1992, Art Spiegelman foi agraciado com um Prêmio Especial Pulitzer: tal categoria foi proposta porque o comitê de premiação não se decidiu se definia Maus como uma obra de ficção ou biografia.O gibi de Ari Folman insere-se também nessa classificação. Suas aventuras de guerras são reais ou inventadas? Como a tenebrosa história do garoto recruta que, incapaz de atirar em alvos humanos, é enviado na frente das missões para matar os cachorros nos campos de refugiados e que, já adulto, sonha com 26 cães furiosos cercando seu condomínio e pedindo sua rendição."Valsa com Bashir vai certamente enriquecer e complicar seu entendimento do seu objeto específico - a Guerra do Líbano e, em particular, o massacre de palestinos no campo de refugiados de Sabra e Chatila por falangistas libaneses", assinalou o New York Times.Ari Folman não quer o peso de ter procedido a uma reavaliação de acontecimentos tão nebulosos e trágicos. "O ponto é que eu não tencionei em fazer um livro ou um filme com uma mensagem política. Trata-se de uma história pessoal. Mas certas coisas são tão importantes para mim que você deve chamá-las de políticas", disse."Há outra coisa crucial para nós, que é não tentar nunca mostrar soldados como vítimas. Há uma frase em Israel sobre atirar e chorar - nós atiramos e depois choramos pela nossa desventura de termos feito isso. Não queríamos nada disso aqui, nada de autocomiseração. Há uma clara e simples mensagem: a guerra é terrível."Os desenhos realistas enchem quadrinhos que às vezes são completados com fotocópias ou reproduções de objetos. Os autores, israelenses, impossibilitados de voltar ao Líbano, tiveram de recompor a visão que tinham de certas cenas, como imagens do Aeroporto de Beirute a partir de pôsteres de companhias aéreas.O processo de reconstituir os fatos da própria vida traz consigo a revelação da condição humana dentro da guerra. O medo que leva a nadar 8 quilômetros numa noite escura. O desconhecimento do outro, a impossibilidade de lidar com regras ditadas por superiores alienados, tudo isso vem à tona com a memória.O processo de animação durou dois anos e meio. "A delicadeza das figuras acentua o clima surreal, que se aprofunda à medida que a história se dirige para o terrível fim. O desfecho é surpreendente, a um só tempo um furioso ato de consciência e um lamento", cravou o New York Times.O Bashir do título refere-se a Bashir Gemayel, que presidiu o Líbano durante poucas semanas, de 23 de agosto de 1982 a 14 de setembro de 1982, e cujo assassinato teria motivado o massacre da Sabra e Chatila.A dança trágica que dá título ao trabalho, o soldado Frenkel com a metralhadora disparando a esmo no centro de Beirute, é explicada por Ari Folman da seguinte maneira:"Ele não estava dançando. A dança é tipo uma metáfora para passar a vocês uma visão cinematográfica do tempo, que é interminável. Você me pergunta quanto tempo durou. Pode ter sido 10 segundos, pode ter sido no máximo meio minuto. Você tem de cruzar alguma junção enquanto está sendo alvejado pelos tiros. Pode ser uma eternidade. Eu quis enfatizar isso, dramatizar em termos cinematográficos. Foi um tipo de milagre ele não ter sido atingido, nem ter nem sequer se machucado." Machucados todos ficaram. Mas os ferimentos não estavam todos visíveis. Valsa com Bashir mostra a fratura exposta.

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