Uma homenagem irregular à obra de Giacomo Puccini

Erros, porém, não impediram que a noite terminasse de forma brilhante

Lauro Machado Coelho, O Estadao de S.Paulo

27 de agosto de 2008 | 00h00

O homem na intimidade, em sua casa, conversando com os amigos, dedicando-se ao hobby favorito de caçar patos no lago: a raras imagens de Giacomo Puccini, projetadas antes do concerto em homenagem aos 150 anos de seu nascimento, foram uma simpática porta de entrada para o mundo desse compositor, um dos mais amados pelo público de ópera. Ricordando Giacomo Puccini foi organizado e teve como mestre-de-cerimônias o pesquisador e historiador do gênero Sérgio Casoy, a quem o Instituto de Cultura Italiana conferiu merecidamente o Puccini Award, uma estatueta criada, este ano, em agradecimento àqueles que se empenham, pelo mundo afora, na divulgação da obra pucciniana.Esse vôo rasante sobre a obra de Puccini que, de Le Villi a Turandot, ofereceu interessante panorama de diversos aspectos de sua obra, contou com o apoio da Orquestra Experimental de Repertório, regida por Jamil Maluf, e da seção masculina do Coral Lírico. Destacaram-se, dentre os trechos instrumentais intercalados aos vocais, boas execuções do prelúdio ao terceiro ato da Tosca e do Intermezzo ao último ato da Butterfly. Um pouco hesitante na ária de Anna, de Le Villi, já em Si, mi chiamano Mimì Claudia Riccitelli tinha encontrado o tom justo. A voz amadureceu, ela é hoje um soprano lírico de ricos coloridos, com ótimas possibilidades expressivas e teve seus melhores momentos em In quelle trine morbide, da Manon Lescaut, e na popularíssima O mio babbino caro, do Gianni Schicchi, que foi inclusive bisada. Riccitelli saiu-se bem até mesmo na grande ária da Butterfly ou na cena da morte de Liù, da Turandot.A seu lado estava o tenor italiano Antonino Interisano, que foi também prejudicado, em sua primeira intervenção - Che gelida manina - pela voz ainda fria e o controle deficiente do fôlego, que o fez tropeçar duas vezes na respiração. Foi um erro do tenor ter querido começar com ária de grande efeito, mas que o expõe a riscos maiores. Se tivesse obedecido à ordem cronológica e iniciado com Donna non vidi mai, da Manon Lescaut, talvez tivesse chegado à Bohème com a voz mais pronta a enfrentar as dificuldades da ária.Porque, a partir de Recondita armonia, da Tosca, Interisano já mostrava as qualidades de uma voz volumosa, de agudos fáceis e bem centrados, com notas graves de um colorido escuro muito bonito. Aluno de Pavarotti, o jovem siciliano possui aquela generosidade de timbre que associamos às típicas vozes italianas. Alguns problemas de fraseado em Nessun dorma, onde o senso de ritmo de Interisano nem sempre coincidiu rigorosamente com o da orquestra, não o impediram de levar essa homenagem a Puccini a um final bastante brilhante.

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