Uma história de amor chiquérrima

Verdadeira consagração em Veneza, A Single Man, primeira direção do estilista Tom Ford, é elegante, fino, mas sem emoção

Luiz Zanin Oricchio, O Estadao de S.Paulo

12 de setembro de 2009 | 00h00

Com Mr. Nobody, do belga Jaco van Dormael, e A Single Man, estreia na direção do estilista norte-americano Tom Ford, completaram-se os 25 candidatos ao Leão de Ouro do 66º Festival de Veneza de 2009. Os vencedores serão conhecidos hoje à noite, em cerimônia no Palácio dos Festivais, no Lido.

Em princípio, se poderia dizer que esses dois candidatos pouco acrescentam à lista dos favoritos ao Leão e a outros prêmios. Mr. Nobody é uma fábula futurista confusa, na qual um homem prestes a morrer recorda sua vida e o que ela poderia ter sido caso seguisse alternativas diferentes. É o tema do acaso e dos caminhos que se bifurcam, trilhado no entanto com tanto artificialismo e confusão mental que não desemboca em parte alguma.

No entanto, deve-se registrar a verdadeira consagração de A Single Man, tanto na sessão para a imprensa, realizada na sala Darsena quase lotada em seus 1.300 lugares, como na entrevista coletiva realizada pouco após, no Cassino. Também é digna de menção a maneira como diretor e elenco vieram para a entrevista - todos impecavelmente vestidos de ternos escuros e gravatas de grife. Um show. A única atriz presente - Julianne Moore - também esbanjou elegância. Sem dúvida, uma entrevista chique para um filme chiquérrimo.

E isso, apesar de a história, tirada do romance de Christopher Isherwood, em tese não ser nada amena. O professor de literatura George Falconer (boa interpretação de Colin Firth) perde o parceiro de 16 anos em acidente de carro. A ideia é mostrar o processo de luto de Falconer, que se debate entre a tentação do suicídio e o impulso de retomar a vida. Mas nunca se viu candidato a suicida mais impecável que esse, com seus ternos cortados sob medida, sua casa envidraçada diante de um bosque, seu carrão, sua contenção de gestos. A fotografia também é esplêndida, linda - bonita até demais para produzir a impressão de um dramático conflito interior. Como resultado, o filme parece para lá de frio, gélido mesmo, sem nada fora do lugar, nem fio de cabelo em desalinho, nem uma só emoção que não seja a correta.

Ford diz que desejou apenas contar uma história de amor, independente do sexo dos personagens. Nesse sentido, não caberia chamar A Single Man de manifesto gay, embora ele ache que possa contribuir para a luta contra a discriminação aos homossexuais. Por exemplo, há uma passagem muito bem interpretada, quando Falconer recebe a notícia da morte do companheiro, e é informado de que não poderá acompanhar seu funeral. "Privativo da família", avisam. No entanto, momentos como esse são raros num filme dirigido com elegância mas escassa inspiração e pouquíssima disposição para o risco.

Ford diz que se sentiu motivado a virar diretor de cinema pois o mundo da moda, no qual se realizou, lhe parece muito instável. "Hoje em dia algo está na moda; amanhã não está", avalia. Assim, o cinema lhe parece caminho para algo mais estável e duradouro. Mas o diretor pode estar enganado. Há filmes que duram menos que uma temporada outono-inverno.

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