Uma feira de arte para milionários

Em Maastrich, na Holanda, grande evento combina obras mais antigas com contemporâneas, incluindo raridades caríssimas

Antonio Gonçalves Filho, O Estadao de S.Paulo

14 de março de 2009 | 00h00

Num mercado que movimenta 43 milhões de euros anualmente, como o de arte, a Feira Europeia de Belas Artes (The European Fine Art Fair/Tefaf), aberta ontem, para convidados, em Maastricht, Holanda, responde por 5% desse valor. É, portanto, compreensível que o aeroporto da cidade registre um monstruoso congestionamento de jatos particulares pertencentes a grandes colecionadores, que lotaram ontem o Centro de Convenções e Exposições de Maastricht atrás de algumas raridades, disputando com museus obras milionárias como o óleo O Parque do Hospital Saint-Paul, pintado por Van Gogh quando estava internado em Sant-Rémy, em 1889, um ano antes de sua morte. Avaliada em 25 milhões de euros, a tela é o grande destaque de uma feira que combina com rara habilidade a arte mais antiga e contemporânea, reunindo de esculturas gregas a obras assinadas por Anselm Kiefer e Damien Hirst, incluindo ainda telas de impressionistas, expressionistas e esculturas, tanto de Rodin como de Henry Moore, Giacometti e Louise Bourgeois.Há de tudo um pouco nessa feira. Matisse? Há vários desenhos espalhados pelas duas centenas de galerias de 14 países instaladas nessa que é considerada a mais elegante e rica entre as feiras europeias. Aqui é possível comprar tanto grandes mestres como Cranach, Rembrandt e El Greco como os gigantes da Escola de Paris e obras do pintor vivo mais caro do mundo, Jasper Johns, desde que a conta bancária do colecionador ostente muitos zeros à direita. O marchand Konrad Bernheimer, proprietário da galeria Colnaghi-Bernheimer, de Munique, diz que a crise financeira mundial não afetou em nada seu negócio. Ao contrário. Antes mesmo da abertura oficial da Tefaf, ele já havia recebido ofertas por um quadro de Frans Hals, avaliado em quase 6 milhões de euros, e outro tanto por uma tela de Lucas Cranach (1472-1553), pintada em 1534 e que retrata uma cena bíblica muito popular no Renascimento alemão, a da mulher traidora que seduz até profetas."O sucesso da recente venda da coleção de Yves-Saint-Laurent, avaliada em mais de US$ 1 bilhão, é um termômetro muito preciso da atual situação do mercado de arte, que busca ansiosamente obras de grandes mestres com liquidez garantida", analisa Bernheimer, que trouxe ainda para Maastricht um valioso retrato pintado por Rubens (avaliado em 5,5 milhões de euros). Parece um preço estratosférico? E é. O poder de compra dos colecionadores que vêm a Maastricht é comparável ao dos 150 museus que anualmente disputam obras com particulares, nunca esquecendo que é de uma colecão privada suíça (desde 1963) o único Van Gogh à venda na Tefaf. "Nossos maiores compradores são de Hong Kong", revela o marchand Richard Littleton, da Littleton & Hennessy Asian Ltd., de Londres. Diante de uma pequena placa transparente de jade do século 18, finamente esculpida com garotos brincando de um lado e uma paisagem de outro (avaliada em US$ 4 milhões), o marchand explica que a confiança dos chineses na arte europeia ainda não é suficientemente grande para apostas nos artistas contemporâneos, cujo preço começa a oscilar diante de um mercado sensível a pequenos terremotos. Também os grandes museus aproveitam para fazer negócios em tempos de crise. O marchand Bernheimer garante que os museus americanos, desde o colapso das bolsas, buscam nos grandes mestres do passado a sua salvaçao, como a National Gallery de Washington, um dos grandes compradores da Tefaf do ano passsado e, espera-se, deste ano também. Infelizmente, não para os latinos, exceto pelo abominável Botero. Ainda não chegou a vez dos brasileiros. Mas não custa tentar. Pela primeira vez a Tefaf, que começou como uma pequena feira de antiguidades, em 1975, abre espaço para o design contemporâneo, incluindo oito marchands que lideram o mercado mundial de móveis e objetos de arte. Um deles é o belga Phil lipe Denys, que mostra um interesse incomum pelo design brasileiro, elogiando as cadeiras desenhadas por Sérgio Rodrigues, comercializadas por ele.Alguns colecionadores brasileiros, como Jorge Elias e Ricardo Akagawa, já frequentam a Tefaf há alguns anos, o primeiro em busca de prataria e móveis e o segundo à procura de pintura moderna e contemporânea. Elias veio a Maastricht pela primeira vez há três anos e se tornou uma espécie de embaixador brasileiro da feira, ajudando os organizadores a selecionar galerias para futura participação (algumas ficam na fila 15 anos). "Este ano são 239 expositores, entre eles Phillippe Denys, que mostra coisas raras como 12 cadeiras do dinamarquês Poul Kjaerholm." O repórter viajou a convite da organização da feira

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