Uma cultura jovem castigada pela guerra

Indignação enfoca o impacto que o envolvimento dos EUA com o conflito da Coreia provocou no cotidiano das pessoas

Vinicius Jatobá, O Estadao de S.Paulo

13 de junho de 2009 | 00h00

Por quase toda a sua longa carreira, Philip Roth atravessou décadas sem encontrar um tema que amplificasse seu imenso talento verbal. Seus primeiros romances com os personagens Zuckerman e Kepesh, nas décadas de 1970-80, são fluentes e imaginativos, mas escritos numa prosa vibrante que passava uma incômoda impressão de ser desperdiçada com assuntos tão banais. Até mesmo o incensado Complexo de Portnoy (1969), quando lido sem fanatismo, se revela pueril e superestimado. No entanto, em 1993, algo aconteceu: com Operação Shylock, Roth se reinventou como escritor e atingiu uma densa gramatura narrativa. Ocupou o proscênio e não mais o largou. A partir da obra-prima O Teatro de Sabbath (1995), Roth publica, incansável, um grande livro após o outro. É impreciso o motivo exato dessa virada. O que se pode afirmar é que esse encontro de sua prosa com uma substância que lhe fizesse justiça, em parte, é fruto do enamoramento de Roth com o potencial ficcional da história. O arco de narrativas que vem de Pastoral Americana (1997) a Indignação (Companhia das Letras, 176 págs., R$ 36), recém-traduzido por Jorio Dauster, é um contrarrelato da história estadunidense oficial. Considerando que ficção é repetir em diferença, tanto o historiador como o romancista trabalham-na em chaves divergentes. Quanto mais próxima da materialidade dos fatos, melhor e mais persuasiva será a narrativa historiográfica. Para funcionar, o romance precisa ir pela direção contrária, muitas vezes. Philip Roth tornou-se um entusiasta tão grande do potencial ficcional da História que dedicou a narrativa a explorar a possibilidade histórica de outra versão dos acontecimentos: O Complô Contra a América (2004), em que imagina o que seria dos EUA caso Lindbergh, entusiasta do nazismo, tivesse se candidatado e ganho a presidência e, assim, alinhando-se com as políticas antissemitas durante a 2º Guerra Mundial. Em literatura, criar uma narrativa sobre o que nunca aconteceu é iluminar e comentar, de outro lugar, aquilo que sucedeu de fato. Nenhum romancista escapa da História: os sujeitos sociais são marcados por ela.Indignação se alinha com a Trilogia Americana - Pastoral Americana (1997), Casei com um Comunista (1998) e A Marca Humana (2000) -, ao traçar comentários ficcionais de determinado momento da História estadunidense. Narrado pelo protagonista Mascus Messner (estratégia diferente da Trilogia, narrada por Zuckerman), o romance se debruça sobre o impacto que o envolvimento americano com a Guerra da Coreia provocou no cotidiano das pessoas. Como em todos seus livros de maturidade, existe neste livro tanto a contumaz e persuasiva riqueza de detalhes como a cinética força vernacular de sua prosa. Roth narra mais uma vida exemplar: um indivíduo devastado pela virulência de sua época. Seu personagem é centrado e consciente, estudioso e responsável. Em Roth a consciência torna as personagens vítimas das circunstâncias. Basta que abaixem a guarda uma única vez para serem arrebatadas na voragem dos acontecimentos. Como o reitor da faculdade onde Messner estuda afirma, após controlar uma baderna, num dos momentos mais eloquentes do romance: "A História é o palco. E vocês estão no palco." Não há fuga.O romance é menos sobre a Guerra da Coreia e mais sobre como uma cultura jovem, alimentada pelo sentimento de inadequação aos valores hegemônicos da década de 1950, é "castigada" pelos mais velhos com o envio a uma guerra violenta. Há esse elemento estrangeiro demolidor em todas as narrativas de maturidade de Roth: é o macarthismo em Casei com Um Comunista; o politicamente correto em A Marca Humana; a morte progressivamente materializada em doenças em Homem Comum; a impotência e velhice em O Teatro de Sabbath. Há uma mesma trajetória nas personagens de Roth - reconhecimento do perigo, rendição consciente ao risco, e vertigem destrutiva pelo meio social -, e o sofrimento infligido torna essas vidas exemplares. São construídas como se fossem núcleos a partir dos quais se podem fazer comentários ficcionais de determinado momento histórico assumindo o olhar de quem está dentro da tormenta. Indignação, no entanto, é um livro mais simples, já que Roth usa, com exceção do brevíssimo epílogo, a própria voz de Messner, macerado por feridas fatais, delirando pela ação da morfina. Ao ter Zuckerman narrando os livros da Trilogia, Roth criava outra camada ficcional: sobre a voz da personagem relatando seus conflitos, existia a voz de Zuckerman deslocando para outro contexto os sentidos daquela narrativa que apropriava. Ao mesmo tempo que narrava o mundo da personagem como ela o via, desmontava o que acabava de narrar trazendo os acontecimentos para sua perspectiva, amplificando as ambiguidades das interpretações. Em Indignação, resta ao leitor simpatizar ou não com a versão delirante de Messner. Apesar de não ser tão impactante quanto a Trilogia, é uma cintilante pérola no colar maduro de suas recentes narrativas. Vinicius Jatobá é crítico literário

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