Uma crônica do passado da cidade

Em 45 registros, São Paulo em Transição exibe a produção de Aurélio Becherini

Simonetta Persichetti, O Estadao de S.Paulo

19 de novembro de 2008 | 00h00

Foi no começo do século 20, ainda na primeira década que a cidade de São Paulo se tornou o principal modelo de um fotógrafo italiano que aqui havia acabado de chegar: Aurélio Becherini (1879-1939). Munido de uma câmera fotográfica que ganhou de presente, saiu às ruas da ainda pequena São Paulo e começou a fotografá-la insistentemente, talvez prevendo a futura transformação, talvez fascinado pelas diferenças arquitetônicas com as cidades italianas, em especial as da região da Toscana, de onde veio. Tornou-se então o primeiro fotojornalista paulistano, publicando suas imagens no Estado (essas fotos estão no arquivo do jornal e fazem parte do livro São Paulo de Piratininga - De Pouso de Tropas à Metrópole, publicado pela Editora Terceiro Nome), e o primeiro fotógrafo a organizar uma memória imagética da cidade. Parte desse seu trabalho pode ser vista na exposição São Paulo em Transição, organizada pelo pesquisador e curador Rubens Fernandes Júnior. A mostra conta com 45 imagens que fazem parte de um lote de mais de 600 pertencentes ao Arquivo do Departamento do Patrimônio Histórico. Paralelamente à exposição, também foi lançado um livro pela Cosac Naify, com textos do próprio Rubens, da arquiteta e fotógrafa Angela C. Garcia e do sociólogo José de Souza Martins, colunista do Estado. São imagens que nos apresentam uma transformação da cidade seguindo a efervescência daquele momento. Uma cidade que vai aos poucos se "metropolizando", derrubando casarios para dar conta de uma busca de modernidade. Becherini não se contenta apenas em registrar a arquitetura e vai nos deixando também pistas daquilo que estava fadado a sumir. Mostra então propagandas nas paredes, cartazes, fachadas de lojas, personagens nas ruas. E nos oferece momentos do cotidiano de uma cidade que começa a se impor.Não se tem notícia de que tenha trabalhado em estúdios. O que se sabe é que era visto perambulando pela cidade, cobrindo todos os eventos, transformações, situações que lhe chamavam a atenção. Suas fotos começam a ser publicadas no Estado e sua produção está concentrada entre 1911 e 1918. O próprio jornal solicitava a contribuição dos leitores e, provavelmente, foi dessa forma que Becherini começou a publicar sua produção. Com o tempo, porém, seu trabalho passou a ser reconhecido: "Becherini é considerado o primeiro repórter fotográfico de São Paulo. Além de sua atuação no Estado, também colaborava para outros órgãos de imprensa, como o Correio Paulistano, Jornal do Comércio e para as revistas Cigarra, Vida Doméstica e Cri-Cri", nos informa Angela Garcia, que apresentou dissertação de mestrado sobre o fotógrafo. Suas fotos são responsáveis por ele ter sido contratado pela prefeitura de São Paulo, pelo então prefeito Washington Luís, que queria registrar as transformações que viria a fazer na cidade. Preocupado, Becherini adquire, por conta própria, fotografias que já haviam sido feitas por outros profissionais, também empenhados em registrar a metrópole, tais como Augusto Militão de Azevedo (1837-1905), Guilherme Gaensly (1843-1928) e Valério Vieira (1862-1941). Desta forma, ele pôde elaborar mais um Álbum Comparativo da Cidade de São Paulo. A cidade em obras, tudo por seu olhar nada convencional. "Becherini tem como fotógrafo documental a informação e o estilo que, de alguma forma, caracterizam os profissionais da época: composição harmoniosa, equilíbrio impecável e a necessidade de flagrar um instante fugidio no fluxo inexorável do tempo. Porém, o que o diferencia dos seus pares é a constante busca de singularidades que se tornavam mais importantes que os logradouros fotografados. Suas fotografias proporcionam um encontro inesperado com o passado, pois materializam uma cidade no tempo e propiciam uma fascinante viagem com a sensação de estar presente", escreve o professor Rubens Fernandes Júnior.Em 1934, sempre se antecipando, Becherini procura o então prefeito Fábio Prado e lhe oferece seu arquivo, formado por suas fotografias e as que havia adquirido de outros fotógrafos. Será o próprio Mário de Andrade, que dirigia e recém-criado Departamento de Cultura, que mais se entusiasmará com o material e aprovará sua compra. Masvai ser outro fotógrafo, Benedito Junqueira Duarte, que vai encarregar-se de organizar, limpar e identificar o material. É assim que nasce a seção de iconografia do Departamento de Cultura da cidade de São Paulo.Cronista da cidade, Becherini acompanhou por 30 anos as suas transformações, deixando imagens deliciosas de seu cotidiano, arquitetura, comportamentos e tendências. Sua importância como fotógrafo era tão grande que o Estado lhe dedicou uma extensa nota lamentando a sua morte. Assim como muitos italianos que ajudaram a construir São Paulo, Becherini ajudou-nos a educar o olhar e a conhecer a cidade. ServiçoAurélio Becherini. Galeria Olido. Avenida São João, 473, Centro, 3397-0000. 12 h/21h30 (dom. até 20 h; fecha 2.ª). Grátis. Até 30/11

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.