Uma comédia romântica subversiva

O Melhor Amigo da Noiva, de Paul Weiland, destrói clichês e destoa das produções do gênero na sua abordagem do sexo

Luiz Carlos Merten, O Estadao de S.Paulo

21 de maio de 2008 | 00h00

É a maneira mais fácil e equivocada de criticar O Melhor Amigo da Noiva. Consiste em ver o filme de Paul Weland como a versão masculina de O Casamento do Meu Melhor Amigo. Você deve lembrar-se - Julia Roberts, enlouquecida porque seu melhor amigo vai casar-se, faz de tudo para separar os noivos, principalmente depois que descobre que o ama. A aparência de O Melhor Amigo da Noiva é mesmo rigorosamente oposta. Patrick Dempsey, do seriado Grey''s Anatomy, tem esta amiga inseparável, mas só quando ela anuncia que vai se casar com outro ele percebe que se trata do amor de sua vida. Incentivado pelos amigos com os quais divide a quadra de basquete, ele vai tentar separá-la do noivo, um aristocrata escocês, com direito a kilt, gaita de fole e tudo.Existe esta comédia romântica que você pode até achar que já viu, mas existe outro filme correndo paralelo e, neste, o diretor Weiland entra de sola numa abordagem do sexo que a maioria das produções de Hollywood não comporta. Mesmo se você não quiser levar muito a sério as referências ao ex-presidente Bill Clinton e a Monica Lewisnky - é a segunda comédia a tratar do assunto, após Três Vezes Amor -, existe uma série de sugestões que não pode passar em branco. Logo na primeira cena em que Patrick, adulto, vai visitar Michelle Monagham no museu em que ela trabalha como restauradora, o inusitado do plano filmado já prepara o espectador para o que virá. Há este imenso quadro representando São Sebastião. Michelle tapa com sua cabeça o que se supõe que seja a genitália do santo. E ela move a cabeça de forma muito sugestiva, como quem faz sexo oral.A partir daí, não é difícil observar como Paul Weiland subverte os clichês da comédia romântica desde o interior. O noivo surpreende o herói e seus amigos na quadra ao se revelar um grande ''enterrador'', como eles repetem, e logo em seguida na cena do banho coletivo a galera fica de queixo caído com o que só eles vêem ao olhar para o garanhão escocês que se banha nu. Quando Patrick Dempsey, depois de aceitar o posto de ''madrinha'' da noiva, vai visitar o padre que oficiará a cerimônia, ele logicamente pensa que o cara é gay e discursa que existem muitos homossexuais, masculinos e femininos, na sua igreja. Mais do que isso, ele olha Patrick de um jeito que remete o espectador às sucessivas acusações de abuso sexual por parte de clérigos norte-americanos.A história da homossexualidade do herói prossegue quando Patrick é apresentado à família do noivo e a mãe do cara, depois de olhá-lo de alto a baixo, anuncia, taxativa, que ele é, decididamente, gay. É só uma piada, mas também pode ser que o diretor Weland esteja querendo fazer uma interpretação psicanalítica da dificuldade que ele tem de mostrar seu afeto, saltando de cama em cama, de mulher em mulher, para mascarar seu fracasso em assumir uma ligação duradoura. Claro que, numa comédia romântica, mesmo quando seus pressupostos são contestados, é de praxe que o herói conquiste a mocinha. Mas o desfecho - na cama, não perca a pirueta final - se faz somente depois que Patrick Dempsey se assume como cão sem dono, como se Weiland tivesse visto o filme de Beto Brant e Renato Ciasca. A partir daí, o filme tem de cenas calientes a briga de socos (e a sério, não a palhaçada de Colin Firth e Hugh Grant na série Bridget Jones), como se o espírito de Sam Peckinpah assombrasse uma comédia romântica. Pode ser que nada disso seja suficiente para fazer de O Melhor Amigo da Noiva um bom filme, mas foge ao lugar-comum e Patrick Dempsey tem mesmo aquela cara de quem está a fim de Michelle Monagham. Na verdade, tudo isso é para explorar a imagem ''sexy'' que ele projeta na TV.Serviço O Melhor Amigo da Noiva (Made Of Honor, EUA/2008, 101 min.) - Comédia. Dir. Paul Weiland. 12 anos.Cotação: Bom

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