Uma cantora de influência perene

A convite do Estado, Ná Ozzetti e Eduardo Dussek trocaram perguntas sobre a Pequena Notável

Francisco Quinteiro Pires, O Estadao de S.Paulo

07 de fevereiro de 2009 | 00h00

Quem percorre a estrada da música popular brasileira tropeça inevitavelmente em Carmen Mirada. E tropeça mais de uma vez. Porque ela é referência no passado e no presente. O primeiro tropeço é nos anos 30, a chamada Época de Ouro. Carmen estaria presente nas décadas seguintes, que o digam Caetano Veloso, Gal Costa, Ney Matogrosso e outros. Pois ela é atemporal, segundo Ná Ozzetti. Uma das participantes das comemorações do centenário de nascimento da Carmen no Sesc Ipiranga (11-3340-2000), que começam no dia 17, Ná bebe nessa "fonte inesgotável". A convite do Estado, ela e Eduardo Dussek, astro do musical Sassaricando - E o Rio Inventou as Marchinhas, em cartaz no Teatro das Artes (21-2549-6004), Rio, trocaram perguntas sobre a Pequena Notável.Eduardo Dussek: As cantoras atuais estão cada vez mais sem personalidade própria na voz. A interpretação pessoal parece ter perdido a importância e a impressão que se tem é de que, com raras exceções, todas cantam igual. Você tem personalidade própria na voz e sabe que Carmen Miranda foi das primeiras a utilizar essa marca. Até a sua geração, as Bethânias, Nanas e Naras seguiam essa lei. Até a portuguesa Teresa Salgueiro, em recente CD cantando MPB, mostra um estilo próprio ao interpretar clássicos brasileiros. Por que Carmen não influencia mais as novas gerações, que, em muitos casos, nem têm ideia de quem ela foi?Ná Ozzetti: Acredito que a Carmen Miranda ainda inspira e influencia parte dos intérpretes das novas gerações, embora não como regra, como você observa. Sua obra é atemporal e sempre será uma fonte inesgotável de referência de altíssima importância e qualidade. Porém entendo que há um fator determinante para um abandono da história e dessas referências, assim como da liberdade criativa e das singularidades de um grande conjunto de artistas de agora, e esse fator determinante é o direcionamento da divulgação e veiculação que se volta para um consumo massificado. Voltando ao ponto, tenho observado um número significativo de novos intérpretes com personalidade própria, com propostas musicais muito interessantes. E raros conseguem uma divulgação expressiva de seus trabalhos no âmbito nacional.Ná: Você lembra sua primeira impressão ao conhecer a obra da Carmen? Dussek: Conheci a figura da Carmen quando eu tinha cerca de 8 anos. Eu era uma criança que ouvia Beatles e Rolling Stones, influenciado pelos irmãos mais velhos, e bossa nova e música clássica, que meus pais ouviam. Carnaval só em fevereiro, nos bailes infantis. Ocorre que o Museu da Imagem e do Som tinha uma exposição sobre os 400 anos do Rio de Janeiro, e numa sala, quase fantasmagórica, havia um boneco da Pequena Notável e um fundo musical de marchinhas em altos brados. Não tive dúvidas, e gritei: "Mamãe, olha aquela amiga do Zé Carioca, vamos entrar, deve ser a sala do Walt Disney! Depois das explicações de minha mãe sobre a Carmen Miranda, fiquei fascinado por marchinhas, que até então achava que era coisa do folclore popular. Como já era metido a compositor, cheguei em casa e compus uma, em homenagem a ela, chamada A Baianinha. Dizia assim: "A baianinha vai dançando, vai cantando na avenida, vai sambando, a lua espiando do alto e pastoras rodando no asfalto." Acho que foi o espírito daquela doida que baixou em mim. Já na faculdade de música, comecei a estudar os compositores Ary Barroso, Noel Rosa, Lamartine Babo, Braguinha, Ismael Silva, Assis Valente... Acabei desembocando em Carmen e Mario Reis, meus preferidos daquela época. A maneira de cantar coloquial deles colou em mim. Até para cantar e tocar rock, acabava tendo um sotaque da interpretação e dos arranjos dos anos 1930 e 1940. Isso está dentro da linguagem do samba carioca e da bossa nova. É tudo do mesmo balaio musical. Não adianta fugir, sou um carioca de Copacabana, com aqueles esses com som de xis e gingado nas divisões rítmicas.

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