Uma Canção de Amor discute o choque cultural

Karin Albou volta ao tema, unindo duas garotas, uma judia e uma muçulmana

Luiz Carlos Merten, O Estadao de S.Paulo

04 de setembro de 2009 | 00h00

Em seu longa de estreia, A Pequena Jerusalém, de 2005, a atriz, diretora e roteirista Karin Albou já se destacara no cinema francófono por sua abordagem de temas ligados à religião e à sexualidade feminina. O filme era sobre garota judia que vivia com a família no subúrbio de Paris e se apaixonava por jovem muçulmano. A família, naturalmente, era contra e Karin, de origem tunisina, fazia observações delicadas (e pertinentes) sobre choques culturais e o desejo feminino.

Veja o trailer de Uma Canção de Amor

Ambos os temas estão de volta em Uma Canção de Amor, que a diretora, desta vez, rodou no ano passado em Túnis. É lá que vivem duas garotas, a judia Miriam e a muçulmana Nour. Amigas desde a infância, elas compartilham a mesma casa de uma vizinhança modesta. O ano é 1942, durante a ocupação da Tunísia pelos nazistas. A romântica Miriam não se interessa muito pela realidade do momento e sonha com romances. No fundo, ela gostaria de ser Nour, que está para se casar com seu primo Khaled. Mas assim como o empobrecimento da família - os alemães repetiram na Tunísia seu comportamento da República de Vichy, espoliando judeus ricos - dificulta a vida de Miriam, Khaled também está desempregado e a família de Nour resolve adiar o casamento. Ele se une aos nazistas contra os judeus - contra Miriam -, com consequências trágicas.

Ao longo de décadas, após a 2ª Grande Guerra, o cinema tem tratado do nazismo e da solução final. O mais impressionante é que o Holocausto, por mais que venha sendo investigado, segue sendo um tema inesgotável. Sempre é possível descobrir um ângulo novo, uma nova história para abordar o assunto. Uma Canção de Amor não é tão bom quanto Caramelo, da libanesa Nadine Labaki, também atriz, roteirista e diretora, mas ambos recorrem a um viés feminino - feminista? - para falar de sexo e, no caso do primeiro, agregar ao primeiro a religião como tema fundamental.

Críticos e historiadores discutem se existe mesmo um olhar feminino no cinema. A maioria das diretoras diz que não e, assim como homens têm falado sobre mulheres, elas também se acham habilitadas a falar sobre eles, independentemente de rótulo. Mas basta ver um filme como Caramelo, ou outro como Uma Canção de Amor, para captar a nuance. É uma maneira de filmar o corpo, o gesto na construção do desejo. O homem seria, talvez, mais direto e até rude. Ou então é a sensibilidade da muçulmana, numa cultura que a segrega mais ainda. Caramelo é mais ?cotidiano?, com sua abordagem da vida em Beirute, hoje. O peso da (grande) história agrega ?tragédia? às escolhas dos protagonistas de uma Canção de Amor. Vale ver.

Serviço

Uma Canção de Amor (Le Chant des Mariées, França-Tunísia/2008, 100 min.) - Drama. Dir. Karin Albou. 14 anos. Cotação: Regular

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