Uma busca rigorosa pela essência

Ao receber o prêmio Robert Bresson, diretor brasileiro diz que paixão por cinema nasceu vendo filmes do francês e de Antonioni

Walter Salles, O Estadao de S.Paulo

13 de setembro de 2009 | 00h00

O fato de receber o Prêmio Robert Bresson aqui no Festival de Veneza tem um significado especial para mim, por várias razões. Primeiro, porque Bresson permitiu que diretores de várias gerações, incluindo a minha, entendessem o que significava o tempo no cinema. Dessa percepção decorre a importância do silêncio, daquilo que está entre as coisas, na narrativa cinematográfica. Ele é o diretor que também revelou as inúmeras possibilidades que existem no "hors-champ", no que está fora do quadro. Naquilo que não é visto, mas pode ser sentido. Em outras palavras, Bresson é o diretor que me possibilitou entender que o cinema é sobre o invisível que complementa o visível.

Tempo, mas também espaço: esse prêmio é ainda mais significativo para mim porque estamos na Itália, e Antonioni é o diretor que me levou a fazer cinema. Como permanecer o mesmo depois de A Noite, Passageiro: Profissão Repórter ou Blow-Up? Fui profundamente marcado por esses filmes. A busca por uma identidade brasileira ou latino-americana na maioria dos filmes que dirigi não teria aflorado da mesma maneira sem a influência de Michelangelo Antonioni.

Descobri o cinema quando tinha 12 anos e vivia em Paris. Eu sentia uma falta imensa do Brasil - odiava aquele frio, aquela chuva fina, os croissants. Perto de onde eu vivia, havia um cinema de arte que só programava sessões duplas. Chama-se "Le Studio de la Grande Armée". No cinema, a vida era muito mais interessante do aquela que eu conhecia. Passei a ir lá tantas vezes durante a semana que, depois de alguns meses, o bilheteiro começou a me deixar entrar de graça. Essa sala tinha uma programação bastante eclética, que ia de westerns de Ford, Hawks e Sergio Leone até clássicos e filmes B, além de diversas retrospectivas. Foi lá que descobri, por exemplo, muitos filmes do neorrealismo italiano.

Foi lá também que vi Pickpocket, Um Condenado à Morte Escapou, A Grande Testemunha (Au Hasard Balthazar), as obras-primas de Robert Bresson. Foi lá que compreendi que seus filmes eram, acima de tudo, uma busca rigorosa pela essência das coisas.

Quando penso em Bresson hoje, lembro imediatamente de Dreyer e Tarkovski, mas também de Kieslowski. Que falta faz Kieslowski. Através de seus filmes, ele nos ofereceu um norte, uma referencia ética e moral. Como Bresson, ele nos deu uma bússola que nos permitiu entender o tempo em que vivemos.

Meu pensamento também vai na direção de Pasolini, e mais especificamente O Evangelho Segundo São Mateus. Há algo único inscrito nos rostos dos homens e das mulheres que habitam o filme. Esse profundo interesse pela geografia humana nos leva de volta a Bresson, porque seu trabalho com não-atores era igualmente extraordinário. Os atores ou não-atores de Bresson nunca mentem.

Essa percepção nos aproxima de um pintor italiano que é considerado por alguns como o precursor do cinema. Estou falando de Giotto, e ele é mais uma das razões pelas quais é significativo estar aqui hoje. Quando tenho a oportunidade de vir para a Itália, tento viajar até Padova, a 60 quilômetros de Veneza, e ver a capela Scrovegni que Giotto pintou.

Meu irmão João sustenta que o cinema, de alguma maneira, nasceu ali. Nas cenas que mostram a história de Maria e do julgamento final de seu filho. Os quadros que descrevem os diversos momentos da vida de Maria estão lado a lado, como fotogramas, ou como um storyboard. Os rostos que vemos nas pinturas são, pela primeira vez, não idealizados. São os rostos de gente real: o padeiro, o marceneiro, o mendigo, as mulheres com as quais Giotto cruzava nas ruas de Padova. A capela Scrovegni talvez seja o primeiro documentário que jamais existiu, e não é à toa que o crítico de arte John Berger chamou Giotto de "um grande metteur-en-scène".

O que também é marcante na capela Scrovegni é a maneira com que Giotto representou os locais em que a narrativa acontece. Uma casa é desenhada apenas com alguns traços, da maneira mais simples possível. Como nos filmes de Bresson, somente aquilo que é essencial interessa.

Peço desculpas por bifurcar desse modo, mas penso que é sintomático que dois artistas de tal forma separados pelo tempo possam ter uma compreensão tão próxima da maneira como a vida pode ou deve ser retratada.

Voltando ao Prêmio Robert Bresson: no passado, vocês distinguiram vários diretores que eu tenho como meus heróis fílmicos. Manoel de Oliveira, Sokurov, Theo Angelopoulos, Wim Wenders. Portanto, receber esse prêmio traz consigo uma responsabilidade. Gostaria de agradecer-lhes e dizer que considero esse prêmio o resultado de uma apreciação generosa dos filmes que dirigi mas, sobretudo, um incentivo para aqueles que eu possa vir a realizar no futuro.

Antes de terminar, tenho uma confissão a fazer: dos 12 aos 13 anos, estudei num colégio jesuíta em Paris. Uma vez, depois de uma semana de férias, nos pediram para escrever sobre o que tínhamos feito durante aquele período. Fomos encorajados a falar de um livro ou de um filme. Eu tinha passado a semana naquele cinema de repertório que mencionei antes e acabei listando uns bons 15 filmes, incluindo alguns proibidos para menores de 13 anos. Mama Roma e Teorema faziam parte da lista, assim como If, de Lindsay Anderson - um filme que questiona, entre outras coisas, o papel da educação tradicional e sugere a implosão da escola. Quem implodiu, no caso, foi o professor. Ele me levou para frente da sala e afirmou que ou eu estava mentindo, ou tinha visto filmes impróprios. Qualquer que fosse o caso, eu tinha me metido numa enrascada, segundo ele. Acabei suspenso.

Então, não deixa de ser uma surpresa perceber que, muitos anos depois, vocês estejam me outorgando um prêmio pela mesma razão pela qual fui punido quando tinha 13 anos: a paixão pelo cinema. Às vezes, é importante reafirmar porque temos esta paixão dentro de nós. Para mim, é porque o cinema é aquilo que nos transporta para um outro lugar, para o desconhecido. É, também, aquilo que nos permite perceber que o mundo é muito mais amplo e complexo do que achávamos. Como diz John Berger: "No cinema, somos todos viajantes. Talvez seja por isso que quando dois namorados vão para o cinema, eles se dão as mãos na sala escura, e não fazem o mesmo no teatro." E menos ainda, eu diria, em frente da televisão.

Muitos falam de uma possível morte do cinema por causa da internet, twitters e afins. Quando o cinema nasceu, há 114 anos, ele começou a ser projetado em circos. Por causa disso, Walter Lima Jr. disse uma vez que o cinema era primo daquilo que vocês chamam na Itália de "ruota panoramica", a roda-gigante. Muitos disseram que a ruota panoramica desapareceria, e isso nunca aconteceu. Talvez porque na ruota panoramica como no cinema, ganhamos uma visão singular e única do mundo e percebemos toda a sua amplidão.

Longa vida, portanto, ao cinema.

Este pronunciamento, feito em inglês, na cerimônia de entrega do prêmio concedido pela Fondazione Ente Dello Spettacolo, no dia 4, foi traduzido e adaptado para publicação no Cultura pelo cineasta

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