Uma brasileira que se pôs a filosofar

Em entrevista à Cult, Marilena Chaui fala da sua biografia, do governo Lula e das novas oportunidades para a esquerda

Francisco Quinteiro Pires, O Estadao de S.Paulo

21 de março de 2009 | 00h00

Marilena Chaui não se considera a maior intelectual viva do País. Mas é inegável a sua importância na abertura de espaços para a mulher na academia brasileira, apesar da oposição masculina. Quando começou a carreira, a filósofa, nascida em São Paulo, em 1941, precisou conciliar vida pessoal e profissional. Aos 24 anos, dava à luz o seu primeiro filho. Ela contou com a ajuda dos pais e do "companheiro" para seguir em frente. Por ter integrado a geração de 1968, Marilena Chaui diz que, em casa, a divisão sexual do trabalho foi substituída pela cooperação: "A crítica do machismo se deu na prática e não somente na teoria." Tudo isso foi possível graças a uma atitude elementar para a filosofia - o amor ao conhecimento ou, por outra, o questionamento das coisas dadas. Ao falar da sua biografia e do seu papel como filósofa - é professora da USP há 40 anos - para Cult (edição 133, R$ 9,90), Marilena Chaui explica por que o filosofar é possível e saudável, apesar de decretarem a sua inutilidade. Especializada em Espinosa e Merleau-Ponty (atualmente ela trabalha no segundo volume de A Nervura do Real - Imanência e Liberdade em Espinosa), Marilena reafirmou a importância da história no ensino da filosofia, com o argumento de que ela "nos protege do risco de imaginar que estamos inventando a roda: há uma história de construção e transformação do pensamento". Nada vem do zero. O presente é mestre em mostrar que nas obras do passado dorme um excesso de significados que, sendo despertos, iluminam o amanhã. A grandeza de uma obra filosófica, diz a professora, citando Merleau-Ponty, "não é dada por sua eficácia, mas por sua fecundidade".A interrogação do sentido e do valor do conhecimento que é a própria razão de ser da filosofia resulta em fecundidade que, por sua vez, produz o novo. Marilena propõe pensar a gênese dos problemas, e não apenas oferecer ajustes paliativos, como se faz hoje no mundo globalizado. Daí ela dizer que, com a crise financeira e o "fim do neoliberalismo (e não do capitalismo, claro!)", a esquerda tem oportunidade de novas reflexões. Caminhos antigos estão descartados. "Não se trata de um retorno à situação anterior ao neoliberalismo - essa é a crença da direita, ao tentar dar um jeito numa política neoliberal com pitadas social-democratas - e sim de algo novo que, como tal, suscitará um pensamento novo e uma práxis nova", diz a autora de Convite à Filosofia. Em relação à ambiguidade ideológica do governo Lula, Marilena, uma das fundadoras do Partido dos Trabalhadores (PT), faz a ressalva de que ele não é "exatamente de esquerda", mas afirma que suas ações "instituem práticas de inclusão sem precedentes na história do Brasil".A mídia é criticada por transformar a "condição de classe" de Lula em motivo principal de ataque. Segundo Marilena, que foi secretária da Cultura na prefeitura de Luiza Erundina, "é preciso dar um basta à tentativa de caracterizar o governo e o presidente da República como populistas". Populismo, ela diz, é "a política da classe dominante para exercer controle sobre as classes populares" por meio da concessão de benefícios e da figura do governante como salvador. Ela diz que essas características estão ausentes das decisões de Lula: e "a mídia entra em contradição consigo mesma quando junta populismo e presidente operário sem diploma universitário".Sua trajetória como educadora que, a todo tempo, diz ser necessário questionar valores dados como naturais se confunde com a difusão da filosofia na universidade brasileira. Esse trunfo bastaria para justificar o sossego das posições adquiridas. Mas Marilena Chaui não vê a filosofia como uma carreira. Filosofar é um combate.

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