Uma bíblia luxuriante da violência

Meridiano de Sangue é a representação poética do homem de moral sem limites

Vinicius Jatobá, O Estadao de S.Paulo

13 de setembro de 2009 | 00h00

Se depender do bom senso, da vitória da qualidade sobre o politicamente correto, o próximo escritor estadunidense a ganhar o Prêmio Nobel será Cormac McCarthy. Seus dois últimos romances publicados no Brasil não vaticinam essa afirmação - A Estrada e Onde os Velhos Não Têm Vez são narrativas irregulares, cansadas; asmáticas até. Não possuem energia; parecem sobras do espólio de um escritor ainda vivo. No entanto, com a nova edição da obra-prima da violência e do delírio Meridiano de Sangue, a percepção de McCarthy mudará radicalmente. Ele é um excepcional artista, vivaz e engenhoso, um prodígio da linguagem; e apesar da ótima tradução brasileira de Cássio de Arantes Leite ter optado pela fluidez - não tem a mesma voragem bíblica do original -, a legibilidade da versão não diminui o impacto de toda exuberância catastrófica que esse romance representa. Se Deus é a guerra, como afirma o Juiz Holden, se realmente a violência é divina, Meridiano de Sangue é uma Bíblia laica luxuriante.

O próprio nome do romance adianta seu tema: a violência. Abertamente inspirado em fatos históricos - a gangue de Glanton realmente existiu -, o interesse de McCarthy se revela logo: realizar um mergulho vertical na carnificina que foi a história estadunidense do século 19. A marcha ao Oeste, sob os olhos de McCarthy, foi um permanente e obsessivo campo de batalhas com grupos distintos atuando no carniceiro mercado de escalpes indígena. É a representação poética - e a violência tem sua poesia - do que acontece com o ser humano quando é colocado em uma situação sem lei e em que sua moral perde os limites. O protagonista sem nome, chamado de Kid, leva um tiro logo nas primeiras páginas - é a coisa mais gentil que lhe ocorrerá. Do momento em que ele entra na gangue de Glanton, até seu enigmático destino final, Kid será testemunha de todo ato de violência imaginável. É para esquecer todos os lugares-comuns que foram construídos sobre os anos de 1840-60 do Meio-Oeste estadunidense em filmes, séries de tevê e romances: Meridiano de Sangue tem uma respiração distinta, particular, é o encontro de Sam Peckinpah e William Faulkner, com perceptíveis ecos do Leviatã de Thomas Hobbes.

No entanto, esse lugar destacado se deve mais à construção espetacular de um único personagem do que todos os corpos indígenas brutalmente empilhados - Juiz Holden é inesquecível, de verdade. Sem a presença filosófica de Holden, o excesso de corpos levaria o leitor para o tédio uma vez que toda ação repetitiva vai esgotando sua força a cada ciclo. Holden faz com que cada ciclo novo ganhe em voltagem - é um poeta da violência, e sua contagiosa visão da natureza humana é destrutiva. Sempre que Holden surge, o romance cresce - é uma tormenta sugando o imaginário do leitor. "Deus é a Guerra". O leitor não vai mais esquecer essa máxima porque a própria narrativa apenas confirma essa visão religiosa de Holden. O mundo é um espaço fatal em que o homem apenas pode se impor pela força esmagadora; e a única língua franca é o assassinato, o estupro, a pedofilia, a expropriação, a chacina. Ao longo do romance, Holden vai nomeando e renomeando os elementos do mundo enquanto os devora - como se sua mera presença envenenasse tanto o espaço que o privasse até mesmo de identidade. Ele avança pela planície com um ar indestrutível; e enquanto os outros membros da gangue sucumbem como moscas, as balas parecem evitá-lo. Ele é tão forte quanto a morte. Ele vence o tempo.

Há uma tendência da crítica em considerar Holden a encarnação do mal - uma metáfora. Mas ele é a criação mais realista da violência cínica que o leitor encontrará. Se o homem é o lobo do homem, Holden é o líder natural da alcateia. É compreensível que a visão do homem que McCarthy destila em Meridiano de Sangue seja demasiado forte para digerir sem a bengala da metáfora; mas basta ler os jornais para visualizar nitidamente lugares, até mesmo domésticos, em que o universo depravado por onde gravitam as personagens de Meridiano parece invadir a realidade. Com a belíssima trilogia da fronteira - Todos os Belos Cavalos, A Travessia e Cidades na Planície -, McCarthy traçou um elogio à amizade e a generosidade humana. Apesar de seus momentos truculentos, na trilogia existe uma fé no homem, um humorismo. Em Suttre, último romance "urbano" de McCarthy, anterior a Meridiano..., há uma galeria de boêmios e desajustados que tentam se equilibrar em um mundo que os coloca cada vez mais à margem - no entanto, o romance é engraçado, vital, positivo. Meridiano de Sangue é um animal intransigente. Sem concessão, sem atalhos, sem requinte, brutalizado, sudorizado, página a página, cadáver a cadáver, McCarthy escreveu o livro definitivo sobre o que há de mais medíocre e grotesco que o ser humano é capaz de realizar. Deus é a guerra; o sangue, a litania; as armas, o terço; e a planície crivada de cadáveres, a vasta nave iluminada. Bem-vindo ao inferno.

Vinicius Jatobá é crítico literário

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