Uma arte em incessante movimento

Entrevistas, romances sociais e ensaio sobre Oswald de Andrade revelam as faces anárquica e pesquisadora desse intelectual

Francisco Quinteiro Pires, O Estadao de S.Paulo

07 de fevereiro de 2009 | 00h00

Oswald de Andrade não tinha medo do inferno. Criado em ambiente católico, ele escutou como as crianças do seu tempo que dava castigo mexer onde não devia. Mas tudo o que Oswald fez na vida foi mexer onde não devia. Ele era dono de um espírito contestador. "Sua personalidade excepcionalmente poderosa atulhava o meio com a simples presença", segundo o crítico literário Antonio Candido.Não é fácil ser assim, dadas as convenções sociais, mais severas na época de Oswald, nascido em 1890 e morto em 1954. Os combativos também são combatidos. Ao ser essa figura polêmica, avessa à ordem, Oswald ficou durante anos sob sombras, embora tenha sido dos mais experimentais entre os modernistas e influenciado vanguardas posteriores. Sua sina era a liberdade, ou a luta por ela. É o que mostram Os Dentes do Dragão, Marco Zero I e II, livros de Oswald, e Por Que Ler Oswald de Andrade, de Maria Augusta Fonseca, todos da Globo, mandados recentemente para as livrarias. Eles são úteis por revelar faces contraditórias de Oswald, apagadas por clichês, um deles sobre a antropofagia - seu projeto estético-filosófico -, e pela dificuldade de compreender o seu comportamento. Ele concebia a arte como movimento, por isso arriscou empurrar os limites dela em várias linhas de frente."A antropofagia, sem dúvida, ainda é o melhor conceito para dar conta da cultura brasileira", diz a crítica literária Beatriz Resende. "O problema é que se dá ao termo interpretações as mais diversas", completa. Maria Augusta Fonseca afirma a necessidade de distinguir o canibal do antropófago, contestando o lugar-comum em que a antropofagia se converteu. Comer por comer a cultura alheia não é o mesmo que devorá-la, transformando-a em valores novos. Existe um ritual de absorção, cuja dinâmica é individual. E, por conta dessa peculiaridade, há quem tenha usado Oswald para justificar erros, segundo Maria Augusta. Com a antropofagia, ele teria servido de muleta a muita gente que não sabia bem o que fazia.O caso era outro. Para Oswald, no começo do século 20, a civilização burguesa e cristã deu o que tinha de dar. "Servi a burguesia sem nela crer." Propunha "ver com olhos livres" o que estava à volta. E guiava-se pela "alegria de quem descobre". O futuro não pertencia à cultura importada. O conhecimento brotava de uma miscelânea - do mundo primitivo com a última tecnologia e as vanguardas artísticas -, coisa que o Brasil de certo modo já apresentava.Essa foi uma crença que o acompanhou todos os dias, mesmo na fase engajada a partir dos anos 30 com a filiação ao Partido Comunista. Nesse contexto surge o projeto de Marco Zero, idealizado como cinco romances sociais sobre a história de São Paulo. Mudanças na estrutura econômica e social do Estado, ao serem abordadas pela ficção, davam oportunidade para revelar os impasses do Brasil, "um eldorado fracassado". Só dois foram escritos - A Revolução Melancólica (408 págs., R$ 53), de 1943, com prefácio de Di Cavalcanti, e Chão (468 págs., R$ 54), de 1945 e prefácio de Roger Bastide."Oswald tentou fazer um romance mural, no qual acabou fugindo da inovação", diz Maria Augusta Fonseca, sua biógrafa e autora de Por Que Ler... (176 págs, R$ 21), que aborda a atualidade oswaldiana e, ao lado de Os Dentes do Dragão (432 págs., R$ 54), oferece uma lente de aumento sobre a personalidade de Oswald. As entrevistas selecionadas em Os Dentes... cobrem 30 anos da trajetória intelectual do modernista, convidado a falar de improviso sobre temas diversos, entre eles o movimento antropofágico, Getúlio Vargas e literatura regionalista. Nesta segunda edição há sete entrevistas inéditas em livro.Marco Zero acabou relegado pela crítica, sobretudo ao ser comparado aos experimentais Memórias Sentimentais de João Miramar (1924) e Serafim Ponte Grande (1933). Segundo Maria Augusta, por ter realizado uma produção altíssima, é natural haver oscilação no projeto, no qual Oswald mergulhou. Oitenta cadernos com anotações foram usados para criar personagens e situações. Isso é curioso em um indivíduo de perfil anárquico, pouco afeito à concentração das pesquisas.Em entrevista ao jornal A Manhã em 1943, inédita em livro e reunida por Maria Eugenia Boaventura em Os Dentes do Dragão, ele disse ser Marco Zero o "resultado de todas as minhas anteriores experiências modernistas". O cenário, pela primeira vez em sua ficção, deixa de ser exclusivamente urbano e fixa o início de uma nova era, com a decadência dos latifundiários.Mas o resultado, segundo Beatriz, é "entediante", apesar dos "momentos radicais e inovadores", como a narrativa cinematográfica, dividida em quadros. "É muito difícil construir uma saga, que se quer de algum modo edificante, sem usar os tradicionais recursos do folhetim, ainda que sob forma modernizada", ela diz. Houve um degrau entre "a pretensão megalômana" dos romances e a sua realização estética final. Em Marco Zero, as ligações com a antropofagia estão "menos explícitas" do que em outros momentos. O fundo ideológico, que exigia um "salto participante" do leitor, entra, por vezes, em choque com ela, no entender de Beatriz.Entre os pontos altos dos romances, ela diz, estão a profecia de Oswald sobre o processo de globalização - já era o mundo visto como um só, a fazenda do interior paulista sendo afetada pelos negócios de Nova York - e a transcrição dos falares dos personagens: camponeses, operários, intelectuais e latifundiários. Aproveitou-se a criatividade do falar regional, confirmando uma das passagens do Manifesto da Poesia Pau Brasil (1924), em que Oswald proclama: "Como falamos. Como somos.""É importante lembrar que Guimarães Rosa vai publicar Sagarana em 1946", afirma Beatriz.Vivendo a ruína de uma velha sociedade, Oswald recusou o "banho de estupidez" ao qual a "realidade mental" dos brasileiros se submeteu. Corajoso, atravessou um momento de transição em que percebeu valer a pena lutar. Mesmo que o condenassem à fogueira, Oswald, um "homem atormentado pelo mal da inteligência", segundo Di Cavalcanti, mexeu onde era proibido, intuindo que a saída para os impasses era mastigar a vida e transfigurá-la em arte.

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