Um Zemlinsky que esconde problemas

Intensa e envolvente, A Tragédia Florentina abre temporada da Osesp

Crítica Lauro Machado Coelho, O Estadao de S.Paulo

28 de julho de 2008 | 00h00

O poema sinfônico A Tempestade, de Tchaikóvski, constituiu boa primeira parte para o programa de reabertura da temporada da Osesp, na quinta. Superados alguns problemas, o maestro John Neschling conseguiu equilibrar as explosões orquestrais da cena da tempestade com o tom mais leve do scherzo em que, às formas grotescas de Caliban, opõe-se a aérea leveza de Ariel. No centro da peça, a cena de amor de Miranda e Fernando, tratada com o devido lirismo.O maior atrativo do concerto era a primeira apresentação no Brasil de A Tragédia Florentina, ópera em um ato de Alexander Zemlinsky, baseada na tragédia de Oscar Wilde. Em forma de concerto - ainda mais no caso de uma partitura que utilize orquestra tão grande, com texturas tão opulentas - sempre esbarra na questão do equilíbrio vozes/instrumento -, essa ópera não foi diferente, apesar de contar com vozes potentes e bem projetadas.O espetáculo foi dominado pela personalidade de Serguêi Leiferkus que, mesmo numa fase vocal de menor esplendor, soube dar vida à figura de Simone, o pequeno-burguês aparentemente obtuso mas que, na realidade, é astucioso e malévolo na forma de tecer a teia em torno de Guido, o amante de sua mulher. Simone é quem mais fala; o ódio de Bianca pelo marido, e o desprezo de Guido pelo aparente corno manso são expressos menos pelo texto do que por uma música de coloridos variados e intensidade mediterrânea.Tenor lírico de voz ampla e clara, Anthony Dean Griffey sugeriu bem a juventude de Guido Bardi e a sua ingenuidade diante do perigoso rival. O papel de Bianca é pequeno, mas a excelente Tatiana Pavlóvskaia investiu nele muita sensualidade.Mórbida, noturna, com todos os perfumes cromáticos da música neo-romântica, A Tragédia Florentina é um dos grandes momentos do Decadentismo, das primeiras décadas do século 20, com toda a sua carga de atração pelos desequilíbrios patológicos. Trazê-la é uma iniciativa de grande importância.

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