Um Wajda intimista em Tatarak

Marcado por uma filmografia de caráter político, cineasta polonês volta-se para outro tema de seu interesse, os sentimentos

Luiz Carlos Merten, O Estadao de S.Paulo

14 de fevereiro de 2009 | 00h00

Numa cena de Tatarak (Sweet Rush), o novo longa de Andrzej Wajda que participa da competição aqui na Berlinale, Krystina Janda recebe o garoto que veio buscar o livro que ela lhe prometeu. Ela lhe estende o volume de Cinzas e Diamantes, que Wajda transformou num de seus filmes essenciais - e numa obra-prima do cinema político por volta de 1960. Essa escolha possui um significado especial para o diretor? "É o tipo da concessão que o fato de ser um autor veterano me permite fazer. Mas o significado é mais profundo, sim. Cinzas e Diamantes foi um marco na minha carreira e na aceitação internacional do cinema polonês de minha geração. Ao mesmo tempo, a história trata de escolhas e responsabilidades, e o garoto de Tatarak está justamente fugindo de ambas."No ano passado, Wajda esteve em Berlim para receber seu Urso de Ouro honorário - de carreira - e para apresentar Katyn, sobre o massacre de oficiais do Exército polonês pelos comunistas, crime que a historiografia oficial, durante décadas, tentou atribuir aos nazistas, durante a 2ª Guerra. Depois daquele filme grande, como produção, e ostensivamente político, Wajda quis mudar seu registro. "Desejava fazer alguma coisa mais intimista, emocional. Sempre fui rotulado como diretor político, mas os sentimentos me interessam e era mais do que tempo que eu os abordasse."Há tempos que o cineasta queria adaptar a história curta de Jaroslaw Iwaszkiewicz. O problema era justamente a extensão dessa história, que não daria um filme longo. Wajda sempre soube que teria de estendê-la de outra maneira, com o acréscimo de personagens e situações retirados de outros livros do escritor que admira tanto (e que já adaptara anteriormente). A história trata dessa mulher casada, que se envolve com um garoto, um papel sob medida para uma grande atriz. Wajda sempre teve Krystina Janda na mira para criar a personagem."Houve um momento em que estávamos prestes a filmar, mas Krystina, uma amiga, tanto quanto uma atriz a quem admiro profundamente, me fez saber que não podia se afastar do marido, que estava morrendo." O marido era Edward Klosinski, diretor de fotografia de grandes filmes de Wajda - a quem Tatarak é dedicado. A produção foi interrompida e, após a morte de Klosinski, Wajda recebeu um manuscrito de Krystina, no qual ela relatava a fase terminal do marido. "Krystina escreveu aquele texto como uma purgação. Achei que ele me enviara por sermos amigos, mas ela me liberou para usar o material do jeito que quisesse. Queria compartilhar com os outros a experiência da morte de Edward. Achei que seria interessante misturar a história dela com a de Iwaszkiewicz."A própria Krystina, falando na primeira pessoa, diretamente para a câmera, relata sua experiência pessoal, além de fazer a protagonista. "O cinema atual opera cada vez mais nas fronteiras do documentário e da ficção, e achei que seria interessante experimentar alguma coisa nesse sentido. Tivemos momentos muito dolorosos, pois Krystina e eu amávamos Edward. Foi uma experiência humana e cinematográfica como nunca vivi antes", reflete o diretor. O que representa para Wajda estar de volta a Berlim, na competição, após receber um Urso de Ouro especial?"Não vim pensando em prêmios, mas convencido de que a Berlinale é o foro ideal para um projeto que foge aos cânones do cinema atual." Wajda promete voltar à política no próximo filme, que será escrito por Agnieszka Holland. No caso de Tatarak, revela uma influência inesperada. "Quando me dei conta de que Krystina voltava para seu quarto de hotel, todo dia, imersa na sua tristeza, imediatamente me lembrei da solidão das mulheres do pintor norte-americano Edward Hopper, em seus quartos de hotel. Hooper foi uma grande referência para mim."

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