Um visceral delírio religioso em plena floresta amazônica

Tudo é intenso e visceral, das atuações ao registro fotográfico de Lula Carvalho

Crítica Luiz Zanin Oricchio, O Estadao de S.Paulo

11 de junho de 2009 | 00h00

A Festa da Menina Morta, uma história crua de delírio religioso, é a estreia na direção do ator Matheus Nachtergaele. No papel principal, irreconhecível como Santinho, está Daniel de Oliveira. Ele faz o místico andrógino que protagoniza uma das cenas mais intensas e perturbadoras do cinema brasileiro contemporâneo - o incesto, com o pai, vivido por Jackson Antunes. Aliás, tudo, nesse promissor filme de estreia de Matheus, revela intensidade, das atuações ao inspirado registro fotográfico de Lula Carvalho. Matheus não disfarça suas fontes de referência. Ator muito conhecido na TV, tem carreira brilhante no teatro, com destaque para o visceral Livro de Jó. Quem o viu nessa peça, encenada no ambiente de um hospital desativado em São Paulo, compreende o filme. Assim como em Bergman, a peça fala, através do personagem bíblico, do silêncio de Deus. Grito de revolta, ou de desespero, do homem que, jogado na temporalidade que lhe traz a morte e na contingência que inclui a fome, a sede e a doença, clama, em vão, por aquele que supostamente o criou. Emblemática a figura de Jó, que tudo perde e clama, depois cala. Ela passa por modelo da fé religiosa, no caso de A Menina Morta reciclada no ambiente em transe da selva amazônica. É lá, numa comunidade ribeirinha, que se comemora todo ano a tal festa em honra da criança desaparecida. O "cavalo" da cerimônia, e que exerce considerável influência sobre a comunidade, é o andrógino Santinho. Sem ter sexo definido, ou, por outro lado, senhor dos dois sexos, bissexual e paroxístico até o desespero, é magnificamente interpretado por Daniel de Oliveira. Em seu primeiro longa, Matheus, homem de teatro, escolhe um registro acima do tom naturalístico tido como obrigatório para o cinema. A opção se vê não apenas na atuação over de Daniel de Oliveira, mas de outros componentes do elenco. A vibração acima do normal está em tudo; no clima, na pulsação da selva, na luminosidade. Por exemplo, sente-se a opressão do calor amazônico, denso, úmido, abafado nos próprios contrastes de luz da fotografia.Por sua vez, a filmagem não economiza no mal-estar de certas cenas. Do incesto, claro, em primeiro lugar, uma vez que mostra, em imagens, o tema-tabu da humanidade. Mas há um todo de violência que envolve a ação e contamina os personagens. Não que se traduza em atos crus ou gratuitos. A violência é mais iminente, algo potencial, pendente sobre as cabeças como uma espada de Dâmocles. Há muito suspense, também, nessa trama existencial. Por sorte, Matheus não cede, nessa sua primeira direção, à mais comum das tentações dos estreantes - a de sobrecarregar o filme com signos que evidenciem seu caráter "artístico". Quer dizer, encher a obra de penduricalhos, de clichês do cinema de arte, o que, em casos menos felizes, só contribui para tornar a obra mais pesada, cheia de carboidratos intelectuais, ou pseudointelectuais. A alternativa, aqui, é pela intensidade sem ostentação. O filme é "artístico" exatamente porque esconde seus propósitos. Em linguagem vulgar: o diretor cuida muito da forma, mas deixa o coração falar e não o sufoca. Como resultado, A Festa da Menina Morta, apesar de toda a complexidade da situação que enfrenta, respira espontaneidade a cada poro. É um filme que se joga nas sensações, mas por trás delas revela o emaranhado de uma rede de ideias, que inclui um debate sobre a sexualidade e a alienação religiosa. Talvez pensadas de maneira intuitiva, não racional, da maneira como pensam talvez os verdadeiros artistas. Dominando apenas uma parte racional daquilo que têm a dizer e avançando, com determinação em medo, em território inexplorado.

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