Um vampiro sangue-bom e lucrativo

Crepúsculo é atraente até quase o final com sua história de amor idealizado

Crítica Luiz Carlos Merten, O Estadao de S.Paulo

19 de dezembro de 2008 | 00h00

São números superlativos - em todo o mundo, a saga de vampiros da escritora Stephanie Meyer já vendeu 25 milhões de exemplares e o primeiro filme adaptado da série de quatro livros (no Brasil, foram editados, por enquanto, somente dois) rendeu US$ 140 milhões, quase quatro vezes o seu custo (US$ 37 milhões), em menos de um mês, somente nos cinemas dos EUA. Crepúsculo estréia hoje com 400 cópias - o maior lançamento da história da distribuidora Paris, que acredita no sucesso. Vampiros e romance prometem dar a tônica do pré-natal. Assista trailer de CrepúsculoAinda não estamos diante de um fenômeno como Harry Potter, mas Stephenie Meyer não tem do que se queixar - nem, aparentemente, a diretora Catherine Hardwicke, de Aos 13 e Os Reis de Dogtown, embora ela já tenha sido substituída, com parte do elenco, por Chris Weitz no segundo filme, Lua Nova, que a empresa produtora Summit começou a rodar em 20 de novembro. Toda época tem o Drácula que merece. Em 1919, sem direitos para adaptar o romance de Bram Stocker, o diretor alemão Friedrich Wilhelm Murnau fez Nosferatu, que virou obra de referência da história do cinema (e marco do expressionismo). Bela Lugosi personificou um famoso Drácula em Hollywood, nos anos 30, e nos 50 e 60 a empresa britânica descobriu um rico filão - quando diretores como Terence Fisher e Peter Sasdy acrescentaram cor e erotismo ao ato de sugar sangue, de alguma forma psicanalisando o mito. No começo dos 90, Francis Ford Coppola inverteu a tendência de efeitos especiais dominante em Hollywood e recorreu a trucagens primitivas, que datam dos primórdios do cinema, para fazer o ultra-romântico e plasticamente suntuoso Drácula de Bram Stocker. E não se pode esquecer da série Lestat, de Anne Rice, que Neil Jordan verteu para o cinema, criando uma cena controvertida - quando Tom Cruise e Brad Pitt voam numa sugestão nada velada de homoerotismo no universo dos sugadores de sangue.Já tivemos vampiros infantis, adolescentes, vampiras lésbicas (Catherine Deneuve e Susan Sarandon em Fome de Viver, de Tony Scott, de 1983), até abordagens cômicas do mito - desde A Dança dos Vampiros, de Roman Polanski, nos anos 60, até Drácula, Morto mas Feliz, de Mel Brooks, nos 90. Mas nunca houve uma história de vampiros como a de Crepúsculo, capaz de fazer o cross-over entre o público teen e o mais maduro. Em seus filmes anteriores, a diretora Catherine Hardwicke já mostrou os hormônios dos jovens em ebulição. Eles fervem mais ainda quando a jovem Isabella, ou simplesmente ?Bella? (Kirsten Stewart), vai morar com o pai, xerife de uma pequena cidade próxima a Washington - úmida, fria e permanentemente nublada. Bella já passou as férias várias vezes nesse lugar, mas agora é diferente. Ela vem para morar e no primeiro dia na nova escola, ainda se enturmando com os colegas, vê chegar a família Cullen completa, incluindo o belo e pálido Edward (Robert Pattinson), por quem experimenta uma fulminante paixão.Embora ela pareça não ser correspondida - o rapaz foge de Bella com a mesma energia com que parece devorá-la com os olhos -, é claro que temos aí o mais improvável dos romances teen. Querendo saber mais sobre a misteriosa família e a conduta do rapaz, que a salva da morte e parece lamentá-lo, que a busca como parece evitá-la, ela pesquisa na internet - onde mais? - sobre lendas urbanas e termina descobrindo que seu príncipe, Edward, é um vampiro. Mas não um vampiro qualquer - os Cullens são, como se autodefinem, vampiros vegetarianos, que sugam o sangue de animais. Ocorre que existem outros predadores agindo nas redondezas e esses, totalmente do mal, querem sangue de verdade.A diretora sabe criar o clima. O garoto não resiste ao cheiro da mulher. Quer sugar-lhe o sangue, mas se autocontrola, como fazem os jovens que esperam pelo sexo somente após o casamento. Numa cena, Bella lhe oferece o pescoço para que Edward crave os dentes. O olhar dela é súplice, o dele, atormentado. Veja para saber o que ocorre. Histórias de vampiros em geral tratam de desejos reprimidos, de sonhos (e, eventualmente, pesadelos) e também do velho embate entre instinto e civilização. Edward pode voar com Bella e desvendar-lhe um outro mundo, mas é um romântico que acredita no amor e a vida toda - desde que, no começo do século passado, estacionou nos 17 anos - esperou por essa mulher. O amor de Crepúsculo é idealizado, feito de expectativa e renúncia. Há o predador que tenta roubar a fêmea de Edward e isso leva a um combate mortal entre ambos. Crepúsculo é muito atraente - até quase o desfecho. O final em aberto é meio bobo, ou previsível, mas é o que ocorre quando é preciso preparar a seqüência, Lua Nova - que veremos quando? Em 2009 ou 2010? ServiçoCrepúsculo (Twilight, Estados Unidos/120 minutos) - Romance. Direção de Catherine Hardwicke. 12 anos. Cotação: Bom

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