Um triângulo amoroso à italiana

Relações intensas, mas com falta de comunicação, marcam a peça Dois Irmãos, de Fausto Paravidino

Beth Néspoli, O Estadao de S.Paulo

05 de março de 2009 | 00h00

Que o espectador não confunda: Dois Irmãos que estreia no Sesc Pompeia nada tem a ver com o romance de mesmo título de Milton Hatoum ou com o espetáculo inspirado no livro. Montagem que vem do Rio, esse Dois Irmãos é tradução direta de Due Fratelli, texto premiado do italiano Fausto Paravidino.A direção é de Cynthia Reis - que foi assistente de Christiane Jatahy em Leitor por Horas - e Michel Blois, que já trabalhou com Jefferson de Miranda, diretor de Nu de Mim Mesmo. Quem viu esses espetáculos, o segundo está em cartaz no Sesc da Paulista, pode esperar a mesma vertente de linguagem na qual o espectador parece ?flagrar? a intimidade de quem não sabe que é observado. O clássico triângulo amoroso é vivido pelos atores Diogo Benjamin, Pablo Sanábio - na peça são os irmãos do título - e Ana Lima. Ela foi quem primeiro se interessou pelo texto ao ver uma montagem em Lisboa, em 2004, da Cia. Artistas Unidos. Mas a encenação brasileira traz uma cenografia especial. Para se ter uma ideia, no Rio a reportagem do Estado acompanhou uma apresentação do espetáculo que fazia sua segunda temporada não num teatro, mas numa Galeria de Arte, onde o cenário ficava exposto ao público durante toda a tarde. Tal visitação também será possível no Sesc Pompeia.O autor da cenografia é Alberto Renault, também roteirista de cinema e televisão e diretor de teatro e ópera. No original, toda a ação da peça se passa num cozinha. Renault criou uma mesa gigante - 10 metros de comprimento por 3 de largura -, com módulos que se abrem movidos pelos atores. Sobre a mesa, uma profusão de objetos, de cadeiras e a luminárias, de louças a instrumentos musicais, de espreguiçadeira a um aquário. Na verdade o cenógrafo primeiro reduziu a cozinha à mesa, depois ampliou esse móvel para fazer as vezes de uma casa inteira. Sob a iluminação do premiado Paulo César Medeiros, a cenografia exposta realmente impressiona. Tem valor de obra de arte por si só? "Não tive essa pretensão", diz Renault ainda no Rio, antes do início da sessão. "Essa questão apareceu quando a peça passou a ocupar uma galeria de arte. Ser ou não uma obra de arte autônoma depende do local onde um objeto é exposto? De como é olhada e vista? Um objeto de arte ainda criar interrogações desse tipo?", indaga-se Renault. "Eu criei a mesa como cenografia, como espaço habitado pelos personagens, obviamente não naturalista.""Como a gente atua muito próximo ao espectador, o importante é mesmo que ele se sinta observando pessoas que vivem aqui, abrem gavetas, alimentam peixes", diz Pablo. "O que me atraiu nesse texto foi desde o primeiro momento a possibilidade de colocar em cena essas pessoas que vivem relações intensas, mas se comunicam muito mal", diz Ana Lima. Por isso mesmo, acaba se estabelecendo um jogo sobre o que é verdade, o que é representação que provoca momentos de surpresa. A direção criou um roteiro de ações, mas há espaços abertos para diferentes movimentos. "Isso ajuda a manter viva a atuação, o tensionamento dessas relações", diz Cynthia. ServiçoDois Irmãos. Teatro Sesc Pompeia (778 lug.). Rua Clélia, 93, tel. 3871- 7700. 5.ª e 6.ª, às 21h30. Até 27/3

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