Um timbre de quem já nasceu tenor

Da carreira de sucesso estrondoso passou ao declínio ao se deixar seduzir pela excessiva exposição

Lauro Machado Coelho, O Estadao de S.Paulo

07 de setembro de 2006 | 00h00

Um timbre privilegiado, com grande riqueza de coloridos - a sua mais notável qualidade, ele a recebeu como uma dádiva da natureza: nasceu tenor. Ao contrário de cantores como Carlo Bergonzi ou Plácido Domingo, que iniciaram a carreira como barítonos e, depois, reiniciaram os estudos para colocar a voz no registro mais agudo, Luciano Pavarotti era um tenor natural. Dotado, além disso, da mais preciosa das características: um timbre absolutamente inconfundível, que permitia à sua legião de admiradores reconhecê-lo, bastando, para isso, ouvi-lo cantar dois ou três compassos.   Veja galeria de fotos de Pavarotti, ouça trechos e assista vídeosEsse filho de um padeiro e de uma operária de tecelagem de Modena, na Emilia Romagna, não se destinava, de início, à carreira lírica. Torcedor fanático do Juventus, chegou a pensar na carreira de jogador profissional; mas acabou optando pela de professor, e chegou a obter o diploma elementar. Cantava, entretanto, juntamente com Fernando Pavarotti, seu pai, no coral Gioachino Rossini, de sua cidade, com o qual viajou para o País de Gales, onde ganharam o primeiro prêmio do Concurso Internacional de Corais de Llangollen. Entusiasmado com esse resultado, Luciano começou, ao voltar para casa, a estudar canto com Arrigo Pola.Dando-se conta do talento de seu aluno, Pola o encaminhou para a classe do respeitado Ettore Campogalliani, professor, entre outros, de Mirella Freni - que também é de Modena e amiga de infância de Luciano (quando o menino nasceu, a signora Pavarotti, que tinha pouco leite, pediu à sra. Freni, sua vizinha e colega na tecelagem, que o amamentasse, junto com a recém-nascida Mirella; o que será que havia nesse leite, meu Deus?!). Sob a orientação de Campogalliani, Luciano ganhou o primeiro lugar no concurso de canto que lhe permitiu estrear em Reggio Emilia, em abril de 1961, como o Rodolfo da Bohème, que estava destinado a ser um de seus maiores papéis.Fato marcante na carreira de Pavarotti foi o seu encontro com Joan Sutherland e seu marido, o regente Richard Bonynge que, naquela época, se empenhavam no resgate do grande repertório de belcanto do início do século 19. Convidado a fazer com eles uma turnê pela Austrália, Luciano cantou Rodolfo ao lado de Sutherland, no Dade County Auditorium da Greater Miami Opera, numa noite de fevereiro de 1965 em que o tenor escalado estava indisposto. Foi a estréia, nos Estados Unidos, de um cantor que, por muito tempo, teve o público americano na palma da mão. O sucesso desse espetáculo fez surgir o convite para que, em 28 de abril, ele subisse ao ambicionado palco do Scala de Milão, sempre como Rodolfo. E, terminada a turnê australiana, voltou a esse teatro para fazer, em 26 de março de 1966, o Tebaldo dos I Capuleti e i Montecchi, de Bellini.A noite de 17 de fevereiro de 1972, no Metropolitan de Nova York, marca o recorde de 17 chamadas para o aplauso, por uma platéia enlouquecida pela facilidade dos nove dós seguidos de ''''Ô mes amis, quel jour de fête'''', numa Fille du Régiment com Joan Sutherland, que o disco imortalizou como uma de suas gravações mais perfeitas. Daí em diante, ídolo do público americano, tornaram-se cada vez mais freqüentes as suas aparições na televisão - sobretudo na Bohème de março de 1977, o primeiro Live From The Met transmitido para milhões de telespectadores de todo o país.A essa altura, o ganhador de muitos Grammy Awards e discos de ouro e platina já não tinha mais o porte atlético do torcedor do Juventus, que um dia pensara em ser jogador de futebol. Numa noite de 1973, em que ele ia se apresentar em Liberty, no Missouri, dentro do Fine Arts Program, transpirava tanto que pediu um lenço - e só o que acharam a lhe oferecer foi um guardanapo de mesa. Surgiu aí o seu hábito de cantar tendo nas mãos um enorme lenço de renda, que se tornou a sua marca registrada.No início da década de 80, o tenor criou a Pavarotti International Voice Competition, destinada a revelar cantores jovens e, em 1982, cantou com os vencedores na Bohème e no Elisir (entre eles, estava a brasileira Leila Guimarães). Para comemorar, em 1986, seus 25 anos de carreira, levou os vencedores à Itália para espetáculos de gala da Bohème em Modena e Gênova e, depois, à China, para apresentações em Pequim. Ali, cantou diante de 10 mil pessoas, no Grande Salão do Povo. A essa altura, porém, a celebridade e as pressões dos teatros e gravadoras o estavam levando, cada vez mais, a estender - perigosamente - os limites de seu repertório.Foram inegavelmente convincentes seus resultados em Puccini: o Pinkerton da Butterfly com Freni/Karajan; o Calaf da Turandot com Sutherland, Caballé/Mehta. Ou no Riccardo do Ballo in Maschera, de que fez seu território. Mas às vezes eles foram altamente discutíveis - Andrea Chénier, o Tonio dos Pagliacci, Don Carlo - ou simplesmente lamentáveis, como o bisonho Otello de 1991 com Te Kanawa/Solti.A década de 80 se encerra com o fato que contribuiu definitivamente para fazer de Pavarotti um fenômeno de massa: a transformação de sua ''''Nessun Dorma'''', da Turandot, na canção-tema da Copa de 1990, realizada na Itália. Na véspera do final dessa Copa, veio finalmente o concerto dos Três Tenores, reunindo, nas Termas de Caracalla, em Roma, Pavarotti, Plácido Domingo e José Carreras - um evento beneficente que se converteu num tremendo sucesso comercial, o disco clássico de maior vendagem de todos os tempos.Entramos aí na fase dos megaconcertos ao ar livre da década de 90: o do Hyde Park, de Londres, diante de 150 mil pessoas; o do Grande Gramado do Central Park, em Nova York, para 500 mil espectadores; o de Paris, à sombra da Torre Eiffel, para 300 mil - números que a televisão multiplicava em milhões no mundo inteiro. E os concertos dos Três Tenores se repetiram, cada vez mais rotineiros, em Los Angeles, em Paris, em Yokohama, em São Paulo. ''''Essa fase de cantor das multidões assinala uma postura cada vez mais desleixada'''', comenta o pesquisador de música lírica Renato Rocha Mesquita. ''''Certamente porque o público, que afluía em massa para assisti-lo, não se preocupava com estilo, e nem se dava conta de que ele mesmo não se importava mais com as regras do belcanto. É a fase das canções, das parcerias com cantores populares, dos pot-pourris, do inevitável caminho para o declínio.''''A ascensão para o estrelato vinha acompanhada de um cortejo de problemas: as exigências cada vez mais estapafúrdias - como a de transportar para a China toda a cozinha de seu restaurante predileto - e a reputação de ter-se tornado ''''o Rei dos Cancelamentos''''. Em 1989, tinha causado grandes repercussões a decisão de Ardis Krainik, diretor do Lyric Opera de Chicago, de romper com ele um contrato que se estendera por 15 anos porque, nos oito últimos desses anos, Pavarotti cancelara 26 das 41 apresentações previstas. Aliás, tinha sido no Lyric, durante uma Gioconda, em 1979, que ocorrera o incidente responsável pela sua ruptura com Renata Scotto. E a causa dessa ruptura tinha sido não apenas a vaidade de um divo que tudo fazia para deixar em segundo plano a prima-dona. Scotto também se insurgira contra a exigência descabida de Luciano de que os ensaios com piano fossem feitos em seu hotel.É verdade que, ao lado disso, o cantor envolveu-se em inúmeras causas beneficentes e humanitárias. As séries de shows intitulados Pavarotti And Friends, reunindo intérpretes clássicos e populares, levantaram fundos para ajudar refugiados e crianças carentes na Bósnia e na Guatemala, em Kosovo e no Iraque.Ter-se tornado, em dezembro de 1998, o primeiro (e único) cantor de ópera a se apresentar no programa Saturday Night Live, da televisão americana, ao lado da cantora pop Vanessa Williams, projetou de forma astronômica o prestígio do artista que, naquele mesmo ano, recebera o Grammy Legend Award, raríssimas vezes concedido. Mas o preço, lembra Renato Mesquita, ''''foi a decadência - provocada não só pela idade, mas também pelo desleixo com a própria saúde, e o excesso de exposição''''.A publicação, em 2004, de The King & I, escrito por Herbert Breslin, seu agente durante 36 anos, que rompera com ele de forma rumorosa dois anos antes, veio jogar mais lenha na fogueira. Breslin criticava suas limitações como ator, suas exigências abusivas durante as turnês, e expunha o segredo de Polichinelo (responsável por uma certa uniformidade de suas interpretações): Pavarotti não sabia ler música e, dotado de muito boa memória, decorava as partituras que lhe eram ensinadas por seu coach - durante muitos anos, Tonnino Tonnini exerceu essa função. O livro sensacionalista de Breslin, porém, dizia apenas aquilo que os ouvidos do público podiam perceber: muito antes de sua despedida do palco - no Metropolitan, em 13 de março de 2004, com a Tosca - já estavam claros os sinais de que chegara ao fim uma voz preciosa, que poderia ter durado mais, se ele tivesse sabido administrá-la judiciosamente.Se passarmos em revista as etapas da vida e produção desse popularíssimo cantor, não é difícil concordar com o julgamento formulado por Renato Mesquita: ''''Pavarotti fica, na história da ópera do século 20, em um patamar muito elevado, sim; mas pelo que fez na fase inicial de sua carreira. Infelizmente, ele não soube envelhecer da mesma forma que Plácido Domingo, por exemplo, está sabendo.''''

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