Um sujeito curioso que corre atrás de toda fé

Christian Cravo transforma o tema em imagens na exposição Espiritoculto

Simonetta Persichetti, O Estadao de S.Paulo

23 de julho de 2008 | 00h00

A psiquiatra brasileira Nise da Silveira (1906-1999), em seu livro O Mundo das Imagens, escreveu: ''Existem aqueles que têm olhos apenas para o mundo exterior e esperam do desenho ou da pintura cópias mais ou menos aproximadas dos seres e das coisas da natureza externa. Outros aceitam a existência de uma realidade interna, mesmo mais ampla que a natureza externa, realidade que unicamente pode ser apreendida e comunicada por meio da linguagem visual.'' Parece ser o segundo caso o da maioria dos fotógrafos e, por conseqüência, também de Christian Cravo.Ao escolher um tema como religiosidade, cultura ou, de forma mais ampla, a fé, ele procurou de todas as maneiras sair do registro puro e simples e mergulhar em alguns dos arquétipos mais antigos e conhecidos da sociedade. Tarefa difícil, já que nosso imaginário ocidental foi concretizado há muitos anos pelas mais variadas formas de iconografia sobre o assunto. As imagens podem contar histórias e criar em nosso imaginário uma idéia dos fatos, mas, acima de tudo, criam em nós uma idéia de representação. E é essa idéia que é difícil de quebrar. E foi justamente isso que Christian Cravo procurou fazer quando decidiu registrar essa questão.Esse trabalho - que durou 10 anos - resulta agora na exposição Espiritoculto, que, segundo o próprio fotógrafo, ''nasce do interesse em retratar a alma humana, nosso lado mais misterioso''. Os primeiros passos foram dados em 1998, quando registrou as andanças dos romeiros para homenagear o Padre Cícero, no Ceará. Dois anos depois, ele publicaria o livro Irredentos. Em seguida, vieram as viagens para Índia, Haiti, Benin, Togo e Gana, sem deixar de fotografar o Brasil. Nessa busca, praticamente impossível, de definir a humanidade, Christian Cravo é motivado justamente pela incerteza: ''O desconhecido afasta as pessoas, mas é o que me atrai'', diz ele em entrevista ao Estado por e-mail. ''Não sei quem é o homem, mas gostaria de descobrir e é isso que impulsiona a minha vontade de trabalhar.''Filho de pai baiano e mãe dinamarquesa, Christian Cravo descobre o mundo por meio do olhar, de sua forma de fotografar: ''Antes de mais nada, sou um sujeito curioso'', afirma. Sua proposta é ambiciosa, afinal para registrar tais temas é preciso conhecer, ou pelo menos saber, o que se está fotografando. Christian estudou muito nesses anos todos, pesquisou, e procura falar com firmeza sobre o que entende por fé: ''A fé é um tema tão importante, que cobre todos os aspectos do credo humano. É uma manifestação que, para mim, transforma perfeitamente a essência humana em iconografia, em imagem fotográfica.'' Ele a transforma em imagem, e é por meio dessa existência de uma realidade interna, apontada por Nise da Silveira, que ele procura traçar os momentos de fervor, de entrega, de coligação entre o homem e o cosmos. Afinal, ele próprio se define como um ser religioso, no sentido amplo da palavra: ''Acredito na possibilidade de mutação do ser, não na fé doutrinada.''Para as imagens que compõem a mostra, ele selecionou aquelas que dão exatamente a idéia daquilo em que ele acredita. Imagens que criam em nós esse cenário de entrega, como o do homem de braços abertos em frente de uma cachoeira no Haiti, assim como a dos braços elevados no Ceará, ou da mulher carregando um enorme peixe dentro de um cesto, na Índia: ''Não somos seres universais, vivemos dentro de um microcosmo onde não nos importamos com os outros, ao mesmo tempo não consigo perceber nenhuma diferença profunda entre as várias culturas, só uma aparente. O homem busca e tem as mesmas necessidades básicas aqui ou em qualquer outro lugar'', reflete.Seu trabalho segue a estética da tradicional fotografia documentária, ou seja, aquela que procura de alguma maneira nos dar conta de uma história visando - dentro do possível - ao esgotamento desse tema. Não é jornalismo, embora tenha nele uma de suas raízes, é muito mais uma forma aprofundada de desvendar um tema: ''Espiritoculto é uma compilação de vários trabalhos, imagens que têm em comum o ser humano e que compartilham de uma mesma iconografia.'' Sem dúvida, uma visão absolutamente particular, pois, por mais que as pessoas entendam e recebam a fotografia como um registro, ela é muito mais ficção, ou seja, criação daquilo que nós imaginamos e queremos que seja a representação de um lugar ou de um fato. Não é diferente com as imagens de Christian Cravo: é a sua religiosidade que aflora nas fotografias.Serviço Espiritoculto. Caixa Cultural. Av. Paulista, 2.083, 3321-4400. 3.ª a dom., 9 h às 21 h. Grátis. Até 31/8. Abertura hoje, 19h30, para convidados

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