Um singelo equilíbrio de ingredientes

Sem acidentes fabulosos, A Reserva tem a qualidade do artesanal e bem-feito

Mariangela Alves de Lima, O Estadao de S.Paulo

15 Agosto 2008 | 00h00

Ir atrás do sonho, dar ouvidos ao chamado vocacional, respeitar os dons inatos em si mesmo e nos outros foram palavras de ordem para a geração que D. Vera, personagem representada por Irene Ravache em A Reserva, encarna com a nitidez de fábula latina. Impresso na contraface desse ideário subjetivista estava o credo anárquico que pregava o repúdio aos ditames da economia de mercado, ao desejo de acumulação e, sobretudo, à noção de segurança pessoal associada a esses dois anátemas. Marchar contra o vento, sem lenço e sem documento seria, tendo em vista a perspectiva histórica, conseqüência de uma oposição deliberada ao conformismo social e político. Sendo assim, no território da arte onde as coisas não são, mas significam, quem ouvia o chamado do seu eu "verdadeiro" funcionava, em geral, como porta-bandeira das transgressões coletivas. A mãe de família, cozinheira talentosa e negociante da peça de Marta Góes, marcha com valentia e bom humor para realizar o sonho e exercitar o talento, embora não tenha a pretensão de desafiar o "sistema". Em parte, deve-se a essa falta de pretensão da personagem a inscrição da peça na categoria igualmente despretensiosa de entretenimento. Toda a nossa empatia é mobilizada para torcer pelo sucesso empresarial dessa senhora afável, generosa com os que a cercam, entusiasmada pela arte culinária e honestíssima na condução do seu negócio. Circunscrita pela consciência limitada dos seus desejos e aptidões, não cabe a essa personagem desenhada pelo critério da verossimilhança estabelecer analogias com uma ordem econômica que exige dos indivíduos o sacrifício da identidade. Trata-se apenas de uma senhora que consegue aliar o prazer à necessidade. Uma das convenções ficcionais da modernidade artística permite que o público receba, por meios diversos, informações a que a personagem não tem acesso. Nessa peça, entretanto, o visível é também o sentido predominante. Porque quer fazer bem-feito, porque procura satisfazer as preferências dos clientes, porque respeita o ofício que exerce e sente prazer no trabalho, a negociante perderá para concorrentes, cujos valores privilegiam a rapidez, a quantidade e a mutabilidade. Nenhum desses fatores mobilizados no texto sugere a transcendência do combate às regras do jogo econômico ou das normas comportamentais. Resta como movimento dramático antagônico a trajetória da personagem da geração mais jovem que deixa de fazer o que gosta mais para ser muito bem-sucedida no plano financeiro. Trata-se de uma oposição binária ilustrada ponto por ponto pelas evoluções díspares do negócio da mãe e dos negócios do filho. A equivalência faz marchar a narrativa sobre um trilho. Sem acidentes fabulosos, salpicadas por vezes com o recurso da contra-expectativa, a história chega ao bom porto do consenso. É igualmente desprovida de acidentes fabulosos a encenação dirigida por Regina Galdino. Soluções simples para indicação de tempo e espaço e tonalidades de interlocução são praticamente o resultado visível de uma direção técnica sensata e obediente à formalização singela da narrativa. Quando se torna mais ousada e permite que a protagonista se enderece à platéia para estabelecer uma analogia óbvia entre todas as atividades que dependem da presença do público, a encenação reitera o óbvio. Mas é só um momento. Destoa desse tratamento sem subterfúgios o fundo cenográfico. Por alguma razão, que não se torna evidente para quem observa, Fábio Namatame criou um painel que sobe até a metade da altura do palco. A impressão é a de economia de material e o efeito melancólico das imagens azuladas que compõem o fundo não parece adequado para expressar o ambiente de uma protagonista decididamente solar. Ninguém pode ser mais simpático, mais doce, mais maternal do que Irene Ravache interpretando a dona do restaurante. Quem acompanha a carreira dessa atriz superlativa sabe que, dependendo da peça, ninguém pode ser mais engraçado, debochado, rebelde, feroz ou trágico do que Irene Ravache. Detalhista nas composições, especialmente atenta aos efeitos da mobilidade facial, seu trabalho dentro da moldura verista, como é o caso desta obra, tem a mesma qualidade do artesanal e do bem-feito que a peça advoga como virtudes de outrora. E uma vez que o teatro, como a comida, é harmonia entre ingredientes, D. Vera é secundada por dois atores. Patrícia Garpar e Evandro Soldatelli, respectivamente no papéis de empregada e filho, completam um triângulo onde há, em cada lado, uma espécie diferente de sonho. Serviço A Reserva. 80 min. 12 anos. Teatro Cosipa Cultura (288 lug.). Avenida do Café, 277, Jabaquara, telefone 5070-7018. Sexta, 21h30; sábado, 21 horas; domingo, 18 horas. Ingressos de R$ 40 a R$ 50. Até 31/8

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