Um senhor americano

Com uma escrita voraz e urgente, Philip Roth diz não pertencer a uma tradição cultural judaica e lança agora no Brasil o seu belo e feroz Indignação

Lucia Guimarães, NOVA YORK, O Estadao de S.Paulo

13 de junho de 2009 | 00h00

O recepcionista da agência literária hesita por alguns segundos. É compreensível. Num momento ele atende mensageiros ciclistas com roupas berrantes de lycra e, em seguida, ouve de uma mulher com sotaque: "Vim encontrar Philip Roth." "Oh...", ele reage, enquanto recupera o ritmo. "Por favor, acomode-se no sofá, posso trazer café, água?" De repente, começo a preferir a companhia do suave recepcionista. Como relaxar a caminho do aperto de mão do maior romancista da língua inglesa, sabendo que ele considera um tratamento de canal mais atraente do que a próxima meia hora? A associação ortodôntica acaba se confirmando por outro motivo durante a conversa.Troquei de roupa uma segunda vez, antes de sair para a entrevista. Uma camisa de linho preto, abotoada para sinalizar modéstia e severidade, colocaria a repórter a uma distância apropriada de Portnoy-Zuckerman-Sabbath-Roth.Que os céus o livrem de sorrir. Philip Roth sabe calibrar com precisão científica o limite entre a polidez e temperatura controlada de sua expressão. Ele me cumprimenta pela rapidez com que rearranjo a decoração da mesa de centro que nos separa, empilhando objetos numa tentativa infrutífera de capturar seu sussurro. Porque ele vai continuar recostado, longe do microfone e vai continuar sussurrando. Enquanto saco um segundo gravador para tentar remediar o desastre potencial e ele, de novo, comenta o gesto, penso: grande começo. Philip Roth, cuja obra é a antítese do desperdício verbal, vai me nocautear com "small talk". "Sobre que livro nós estamos mesmo falando hoje?", ele pergunta. "Indignação acaba de sair no Brasil", respondo, resignada com o teatro que vai se seguir. A pergunta é para destacar o fato de que ele já terminou outros dois romances, The Humbling e Nemesis, com data de publicação nos EUA em 2009 e 2010.Entrevistar Philip Roth é testemunhar o poder do controle. Ele é um interlocutor formidável não porque se engaja na conversa, mas porque ele vai, metodicamente, desarmando qualquer tentativa de ancorar sua ficção ou sua pessoa num contexto. Ele nega pertencer a uma tradição cultural judaica, enquanto admite que a maioria de seus personagens são judeus. Menciona o reconhecimento e as inúmeras honrarias que recebeu com distância quase sarcástica - o Nobel amplamente merecido continua elusivo. Mas, em seguida, quando comenta a importância da cidade na sua criação, coloca-se em companhia de William Faulkner e Saul Bellow. A expressão que ouvi durante uma pescaria na década de 80 voltou à memória ao ler o breve, belíssimo e feroz Indignação. Enquanto não pescávamos nada, um escritor americano, amigo próximo de Willem De Kooning, me revelou os sinais de demência do grande pintor, então mantidos em segredo pela família do artista. "Mas o fato é que, a esta altura, ele continua pintando como um filho da mãe", disse o escritor. Philip Roth, no domínio inconteste de suas faculdades, aos 76 anos, continua escrevendo como Willem De Kooning pintava. Com a voracidade e a urgência de quem joga xadrez com o tempo. "É difícil acreditar em depois", diz ele. Ao contrário de grandes autores que não recuperam o vigor criativo depois de um momento de hesitação, Roth, a partir dos 60 anos, reemergiu como a voz narrativa dominante da vida americana. Seus alter egos enfrentam doença, impotência sexual e morte, enquanto o escritor olha o passado como fonte da próxima obra, a melancolia é problema do leitor. A aversão de Roth à perda de tempo é de tal ordem que, em 1998, ele respondeu ao ataque recebido nas memórias da ex-mulher, a grande atriz Claire Bloom, com o romance Casei Com Um Comunista, uma denúncia brilhante do macarthismo, repleta de bile contra a personagem mal disfarçada de Eve Frame. Pergunto se algum romance seu que lhe seja mais caro deveria ser reconsiderado, ele é sucinto. "Nem eu nem os livros podemos esperar.""Quando era jovem, eu não tinha consciência do contexto histórico à minha volta. Passaram-se décadas para que eu pudesse dizer, ah, foi isto que aconteceu então", comenta Roth, quando pergunto sobre o peso da história na nova literatura. Além de não se interessar por jovens, Roth quer dar a impressão de que não lê novos escritores. Se é fato, não importa. Estou diante de um grande artista decidido a não deixar o homem atrapalhar a conversa. Só quando começo a empacotar o equipamento, Philip Roth reverte ao mundano e pergunta, curioso, qual o restaurante brasileiro que recomendaria na cidade de Newark, berço de Nathan Zuckerman e do personagem à minha frente. Um olhar ficcional e crítico sobre os EUACONSAGRAÇÃO: Nascido em New Jersey, em 1933, Philip Milton Roth é o único escritor vivo a ter toda a sua produção publicada pela Library America. Além de receber por três vezes o PEN/Faulkner, ele conquistou a Gold Medal for Fiction, a mais alta distinção da American Academy of Arts and Letters. Considerado um dos mais importantes ficcionistas americanos da segunda metade do século 20 e tendo origem judaica, recebeu em 2007 o prêmio Pulitzer por Pastoral Americana, que forma com Casei Com Um Comunista e A Marca Humana uma trilogia sobre a problemática vida norte-americana. Ele é criador do personagem Nathan Zuckerman - tido como seu alter ego -, protagonista de vários de seus livros, como Complexo de Portnoy. As outras obras de Roth traduzidas - todas publicadas pela Companhia das Letras - são as seguintes: Adeus Columbus, O Animal Agonizante, O Avesso da Vida, Complô Contra a América, Entre Nós, Fantasma Sai de Cena, Homem Comum, Operação Shylock e Teatro de Sabbath.

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