Um romântico ditando caminhos à vanguarda

Também tema de homenagens no ano de seu centenário, Messiaen é analisado na BBC Music Magazine

João Luiz Sampaio, O Estadao de S.Paulo

29 de novembro de 2008 | 00h00

"Sua música pode soar como o século 20, mas, no coração, ele era um romântico." A definição de Christopher Dingle para a produção do compositor francês Olivier Messiaen é tão perfeita como vaga. Em uma era de inovações e abstrações, sua música, ele costumava dizer, era sempre "sobre algo". No entanto, ele rechaçou qualquer volta gratuita ao passado, em que pesem seus temas preferidos - religião, amor, morte, natureza, eternidade. Sem contradições. Em sua edição de novembro, a BBC Music Magazine elege o compositor como tema de uma longa análise, motivada pelo seu centenário de nascimento. Seria natural sugerir paralelos entre ele e o também centenário Elliot Carter. Com exceção de referências ao impacto provocado pela audição, na juventude, da Sagração da Primavera, o único elemento em comum a ser ressaltado entre eles é a busca por uma linguagem extremamente pessoal em um cenário que muitas vezes foi marcado pela pasteurização da revolução, canonizada no desejo de cada novo compositor de romper com a tradição. Assim, a melhor maneira de conhecer a obra de Messiaen, morto em 1992, não é colocá-la em perspectiva ao lado da produção de seus colegas mas, sim, encontrar em suas partituras aquilo que o motivava. Em depoimento à revista, o compositor Pierre Boulez é enfático. "Suas aulas nada tinham de heterodoxo, assim como suas idéias, com as quais nem sempre era fácil concordar. No entanto, seguindo ou não suas sugestões, saíamos de suas classes com um desejo enorme de compor. Ele nos provocava a criar música - e isso é essencial se você quer ser um compositor."O texto de Dingle não é um esboço biográfico, nem está preocupado em listar as principais obras. Em vez disso, ele escolhe sete aspectos, sete temas que considera fundamentais em sua produção: Esperança e Alegria, Medo e Espanto, Amor, Romantismo e Modernismo, Criação, Eternidade e Céu. A cada tópico, ele reaparece como uma figura curiosamente interessante e a oposição entre romantismo e modernismo vai dando voltas na mente. Como se tornou ícone da vanguarda um homem que se recusou a aceitá-la como dogma? Talvez, mais do que um homem de seu tempo, Messiaen tenha criado dentro de si uma época própria, atemporal e, por isso mesmo, capaz de dialogar com qualquer tempo. E há uma espécie de frescor misterioso que surge dessa combinação.

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