Um rio que continua a passar na nossa vida

Paulinho da Viola e Monarco falam de como chegaram à Portela, das relações marcadas pela paixão e também por conflitos

Pedro Henrique França, O Estadao de S.Paulo

10 de dezembro de 2007 | 00h00

Em Meu Tempo É Hoje, Monarco afirma: ''''Portela é Oswaldo Cruz, e todos os meus sambas em que eu falo Portela eu tenho de falar em Oswaldo Cruz.'''' Lá, Monarco e Paulinho da Viola são figuras respeitáveis, já participaram de muitas rodas e nutrem enorme admiração pelo bairro. No democrático mundo do samba, Paulinho e Monarco se consideram ''''mais um'''' entre os tantos nomes da história portelense.''''Antes de ser conhecido, a gente já estava lá. E mesmo pessoas que já têm fama e se aproximam adotam comportamento de respeito, de ajudar, de participar, como uma pessoa qualquer'''', ressalta Paulinho. ''''Cheguei à Portela ainda menino, em 1946. Ali, segui minha carreira de sambista e até hoje estou lá'''', emenda Monarco.Ao conceder entrevista ao Estado, Paulinho lembrou com detalhes de sua ida à Portela. Foi em 1964, época em que, até então, freqüentava a Unidos do Jacarepaguá. Oscar Bigode, diretor de bateria da Portela, encontrou-o lá e o questionou: ''''O que você está fazendo aqui? Vou te levar pra Portela.'''' Foi num domingo daquele ano, segundo Paulinho, que começava sua história com a nação portelense. De início, recorda, ficou acanhado, dedilhava alguns acordes no cavaquinho, sem palpitar em letras. ''''Até que o Ventura me perguntou um dia se eu tinha alguma coisa. Aí tinha uma primeira parte de uma música, que lancei na roda e o Casquinha emendou a segunda.'''' A estréia culminou no conhecido samba Recado.Para Monarco, a história começou mais cedo, quando tinha 13 anos. De início, ajudava nos desfiles com o cordão de isolamento. Em 1952, compôs seu primeiro samba, Retumbante Vitória, que João Nogueira gravaria mais tarde como O Passado de Portela. ''''Eu alimentava dentro de mim a esperança de compor um samba para a Portela e deu certo.'''' As reuniões do samba ocorriam sempre aos domingos, ''''num botequim, na Portelinha''''. ''''Sempre tinha uma reunião de pagode para mostrar um samba novo'''', lembra. O amor às cores azul e branco é, para Monarco, algo difícil de conceituar. ''''É uma coisa que nós amamos, não tem nem como expressar. Se eu for falar da Portela, não vou conseguir terminar, é um grande amor do coração.''''Paulinho relata que ficou fascinado por ele, ''''um principiante, estar naquele meio'''', e diz ter se apaixonado cedo pela águia azul e branca, antes mesmo de pisar na área. ''''A Portela pra mim foi uma escola de aprendizagem, onde conheci pessoas e histórias incríveis. Descobri que lá tinha um universo que muita gente não conhecia e até hoje não conhece muito bem. E é uma pena que pessoas que podiam contar muitos fatos importantes morreram sem poder fazer isso'''', conta.Em 1969, ele reuniu integrantes antigos da escola para gravação de um disco, o antológico Portela, Passado de Glória, lançado em 1970. Daí que surgiu a formação da Velha Guarda Show. Monarco lembra bem dessa união e diz que daí em diante a Velha Guarda foi ''''se deslocando por aqui, por acolá'''', fazendo seus shows. Ainda na mesma época, Paulinho diz ter ''''quitado sua dívida'''' com a escola ao compor Foi um Rio Que Passou em Minha Vida - que ele considera ser ''''o maior sucesso'''' de seu trabalho.Mas nem tudo foi mar de rosas entre Paulinho, Monarco e a escola. De 1977 a 1995, Paulinho se desligou da Portela - a escola. Não concordava com algumas mudanças técnicas e burocráticas que a diretoria buscava. Ele não estava só. Candeia, Paulinho e mais um grupo, incluindo Monarco, formaram um ''''quilombo, que não tinha nenhum compromisso com desfile''''. Segundo Monarco, foi um período de aborrecimento, em que a diretoria entendeu que deveria chamar compositores de fora para a Portela. Mas que aos poucos se acertou. ''''Eles acordaram que não havia necessidade disso, porque já tinham os verdadeiros compositores, uma cultura que era nossa'''', pontua.Foi um rompimento que entristeceu Paulinho. Ele confessa, entretanto, que nunca deixou de torcer pela águia azul e branca (tradicional abre-alas da Portela) quando ela entrava na avenida. O retorno à escola foi programado e contou com chantagem emocional, como lembra o sambista. Era uma festa na Portela, e quando ele estava no palco colocaram Seu Alberto, ''''de bengala'''', para dizer ao microfone em direção a Paulinho: ''''Você tem que voltar a sair na escola.'''' Paulinho não teve saída e retornou aos desfiles. Hoje, sua presença em Oswaldo Cruz é rara.Monarco, que hoje mora em Riachuelo, próximo ao Méier, diz que a cultura de reuniões já não tem mais intensidade e que sente muita saudade daqueles tempos. ''''A turma de hoje não cria mais como antigamente, não tem mais os sambas de exaltação, de desilusões amorosas. Só se pensa em samba-enredo, ficou muito profissional'''', afirma. ''''Mas continuamos aí, tentando, a todo custo, nós, a Velha Guarda, dando seguimento ao samba.'''' O tal rio azul e branco ainda passa por esse coração? Monarco responde: ''''Passou e ainda passa, porque é de coração, procuramos fazer o samba direito para ele ficar na história.''''

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