Um retrato sem retoques da Índia

Em seu premiado livro de estréia, Aravind Adiga diz que pobres, no país, não podem escapar ao destino

Ubiratan Brasil, O Estadao de S.Paulo

04 de dezembro de 2008 | 00h00

O cruel retrato da Índia, apresentada em seu lado mais sombrio, garantiu a Aravind Adiga, até então um desconhecido escritor indiano de 33 anos, o passaporte para o sucesso. Em outubro, seu livro O Tigre Branco (Nova Fronteira, tradução Maria Helena Rouanet, 256 páginas, R$ 35) foi o vencedor do Man Booker Prize, o principal prêmio literário da Comunidade Britânica, que inclui as ex-colônias e a Irlanda."É um livro surpreende por tratar de questões sociais muito importantes - as divisões entre ricos e pobres e a impossibilidade dos pobres de escaparem de seu destino na Índia", justificou Michael Portillo, presidente do júri que premiou Adiga. "O tema é a miséria da qual os pobres não apenas não conseguem escapar, como não têm desejo ou ambição de escapar."O livro é uma longa carta que Balram Halwai, o tigre branco do título, escreve para o primeiro-ministro da China, que logo vai visitar a Índia. Procurado pela polícia, Halwai busca, com seu texto, alertar o político sobre a real situação do país que está prestes a conhecer. Com isso, Adiga oferece um retrato nada honroso de uma das principais nações em desenvolvimento.Afinal, para subir na vida e conquistar uma posição de destaque nacional, Halwai assassina seu patrão, crime que justifica ao primeiro-ministro chinês como um ato de empreendedorismo."Balram Halwai é membro da subclasse indiana invisível, um dos milhões de indianos que ficaram de fora do boom econômico", comenta o escritor de 34 anos. "O romance procura dar voz literária àqueles que ficam de fora das narrativas de nossos tempos: os pobres."Aclamado pela crítica, O Tigre Branco ganhou destaque justamente por não recorrer à tradicional visão condescendente da pobreza, em que a falta de recursos transforma o homem em um coitado. Ao contrário: o livro mostra que a pobreza cria monstros, como Balram Halwai. Sobre o assunto, Adiga conversou com e-mail com o Estado.Balram Halwai parece ser uma mistura de diversos homens. É isso mesmo? Se sim, quem seria?Ele é uma combinação de vários homens que conheci enquanto viajava pela Índia - em estações de trem, bares e parques públicos. Ele é um composto de numerosos choferes, empregados domésticos, guardas de segurança etc.Aliás, ele foi comparado, em algumas críticas, a Macbeth. O que pensa disso?Bem, entre as diferenças que marcam um e outro está o fato de Balram sair vivo no final da história - e Macbeth não!Comparações nem sempre são bem vindas, mas sua obra faz lembrar a de Ralph Ellison, O Homem Invisível. Você poderia comentar essa e outras influências?O Homem Invisível é uma tentativa de dar voz aos americanos negros que não tinham permissão de se expressar por conta própria na literatura e no cinema da época. Em um certo sentido, meu romance é uma tentativa de capturar, na literatura, a voz de um dos homens invisíveis da própria Índia - a imensa subclasse de serviçais e homens e mulheres pobres, que são sub-representados em nossa literatura e cinema. Escritores negros como Ellison, Richard Wright e James Baldwin provocaram enorme influência em minha escrita.Você disse certa vez que simplesmente escreveu sobre a Índia que você conhece e na qual vive. Os últimos 50 anos, no entanto, trouxeram enormes e tumultuosas mudanças na sociedade indiana. Assim, é possível dizer que uma nova Índia vem sendo formada?A Índia está passando por uma transição entre uma tradicional sociedade rural, com uma estrutura familiar marcada por uma casta e um forte clã, para uma sociedade mais urbana e individualista. Todos os dias, milhares de indianos vêm para as cidades, acelerando o processo. Meu romance retrata a vida de um homem realizando essa mudança.Você poderia falar um pouco mais sobre a divisão binária da cultura indiana, entre a região próspera, conhecida por Luz, e a marcada pela pobreza, a Escuridão?Economicamente, a Índia é claramente dividida entre o sul e o oeste, que progrediram tremendamente, e o tradicional coração do país, do rio Ganges, que permaneceu economicamente atrasado sob diversas formas. Mas esses tradicionais estados do norte que contornam o Ganges são também aterrorizados por políticos corruptos, criminosos e problemas sociais e de saúde em grande extensão. A diferença é que tentei captar essa metáfora.Você se identifica particularmente como um escritor indiano?Vivo na Índia (em Mumbai) e escrevo sobre temas relativos ao povo indiano. Mesmo assim, sinto-me à vontade para capturar influências literárias do mundo inteiro.

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