Um personagem simbólico dos anos de chumbo

Cidadão Boilesen desvenda participação do empresariado na repressão política

Luiz Zanin Oricchio, O Estadao de S.Paulo

31 de março de 2009 | 00h00

Cidadão Boilesen, de Chaim Litewski, pode ser visto como um filme político de exceção. Ao contrário de outros que se ocuparam do período militar, este toca em tema tabu, quase clandestino na historiografia nacional: a participação do empresariado na repressão aos grupos de esquerda durante fase mais sangrenta da ditadura, na vigência do AI-5.O véu é erguido através do resgate da figura de Henning Boilesen. Dinamarquês, Boilesen imigrou para o Brasil e aqui fez fortuna. Galgou degraus e tornou-se presidente do grupo Ultragás no auge da carreira. Anticomunista ferrenho, organizou e participou ativamente na "caixinha" dos empresários para arrecadar fundos para a Oban - a chamada Operação Bandeirantes, encarregada da repressão política em São Paulo, no início dos anos 70.Amigo do delegado Sérgio Paranhos Fleury, Boilesen ficou famoso não apenas por cooperar com a polícia política, mas por acompanhar pessoalmente as sessões de tortura. Dizem que sentia imenso prazer em ver presos pendurados no pau de arara, apanhando e tomando choques elétricos. Em 15 de abril de 1971, Boilesen foi executado por um grupo de esquerda, próximo da Alameda Casa Branca, onde havia morrido Marighella dois anos antes.O filme traz depoimentos importantes de ex-guerrilheiros, historiadores do período, políticos como Fernando Henrique Cardoso, religiosos como dom Paulo Evaristo Arns, policiais e até de um dos filhos do empresário. Os depoimentos, como é fácil de se compreender, são contraditórios. O filho o isenta de qualquer participação na repressão política. Já o coronel Erasmo Dias o reconhece como "um dos nossos". Quem o conheceu, diz que Boilesen era boa gente, alegre e mulherengo. Mas houve também quem tivesse testemunhado seu lado obscuro e este nada tinha de agradável. O filme de Litewski, no entanto, evita a armadilha de tratar um caso político como algo pessoal. A atuação de Boilesen, e seu assassinato, recebem a moldura do contexto da época, inclusive no plano internacional, em plena vigência da Guerra Fria: ânimos acirrados, raciocínio bipolar ("ou está comigo ou está contra mim"), sonho revolucionário de um lado e anticomunismo de outro.Enfim, Boilesen aparece como personagem-símbolo de um período ainda por esclarecer. A participação civil no golpe militar e na manutenção do regime, até mesmo financiando a repressão e o desrespeito aos direitos humanos, tem sido jogada para debaixo do tapete. Alguns empresários saem do filme com a imagem arranhada. Outros crescem. São os casos de Antonio Ermírio de Moraes e José Mindlin, citados como tendo se recusado terminantemente a contribuir para a caixinha da tortura.nome

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