Um pedaço conturbado da França no Maranhão

Vasco Mariz e Lucien Provençal revêem Daniel de La Touche

Elias Thomé Saliba, O Estadao de S.Paulo

02 Fevereiro 2008 | 00h00

A fraqueza da informação faz crescer a fantasia da representação. Isto parece valer tanto para o turismo quanto para a historiografia. E no caso desta última, ainda parece valer igualmente tanto para os testemunhos quanto para os intérpretes. A presença francesa no Maranhão, no início do século 17, sempre entrou naquele capítulo da história do Brasil comumente chamado - não sem um certo sotaque luso-brasileiro - de ''''invasões francesas''''. Nem Portugal nem Espanha haviam ainda conseguido se estabelecer naquela região abandonada e quase intocada - e ''''invasão'''' não passava de mais uma daquelas fortes metáforas projetadas em direção ao passado. A carência de fontes e a sua dispersão em inúmeros arquivos portugueses, franceses, espanhóis e brasileiros sempre dificultou um melhor conhecimento do efêmero episódio, aumentando as especulações, as polêmicas e as fantasias. Mas, com ou sem razão, a experiência da França equinocial, entre 1612 e 1615, acabou por dar o nome à cidade de São Luís, associando a origem da bela capital maranhense às guerras religiosas dos grandes reis Bourbons do século 17. É o que se confirma ainda hoje, nos relatos dos guias e sites turísticos de São Luís, os quais, obviamente, eliminam quaisquer controvérsias. Sem eliminar as versões polêmicas, as controvérsias e apoiados em fontes de vários arquivos, muitas delas inéditas, Vasco Mariz e Lucien Provençal reúnem o essencial do tema em La Ravardière e a França Equinocial - Os Franceses no Maranhão (Topbooks, 231 págs., R$ 34,90). Os autores reconstituem, sobretudo, a fragmentada trajetória de um dos principais personagens do episódio - Daniel de La Touche, o senhor de La Ravardière, que paradoxalmente reunia todas as qualidades de um cavaleiro medieval com todos os defeitos de uma personalidade renascentista. Ele já viajara antes pelos mares do Caribe, explorando a região das Guianas em 1604. Antecipando a hilariante ficção de Voltaire, chegou a levar a Paris o índio Iapoco, que fez sucesso na corte francesa, tornando-se depois empregado doméstico da esposa do próprio La Touche. O protestante La Touche parecia um estranho no ninho, dotado de rara habilidade para transitar, em precário equilíbrio, em fervorosas cortes católicas. Tanto, que a Rainha Maria de Médicis só autorizou a expedição dele ao Brasil na companhia de vigilantes capuchinhos, como Claude d''''Abeville, Yves d''''Evreux e Arsène de Paris - responsáveis, vale dizer, pelas 3 narrativas mais detalhadas e, até hoje, os testemunhos mais notáveis do episódio maranhense. De qualquer forma, num século pleno de infindáveis conflitos e qüiproquós religiosos, o que podia se esperar de um empreendimento comercial católico que tinha um protestante no comando? Os autores reúnem uma vasta documentação, pontilhada de referências importantes, mas - como eles próprios reconhecem - ainda cheia de falhas e omissa em vários pontos. Sobretudo em relação ao desfecho final, a batalha de Guaxenduba, que se tornou uma espécie de ''''nariz de Cleópatra'''' do episódio. Se Jerônimo de Albuquerque tivesse perdido o combate, a história seria escrita de maneira diferente. Mas a vitória foi completa: os franceses perderam mais de 100 homens entre os quais cerca de 30 nobres. E, como sempre, acabou sobrando para os tupinambás: mais de 400 mortos. Entremeando a tragédia, sobram alguns lances pitorescos. Utilizando-se de um misterioso intérprete (o português Genésio Falcão) Jerônimo de Albuquerque e La Touche chegaram a trocar mensagens: o primeiro revela seu lado realista, dizendo ''''sem as armas, escusadas são as palavras''''. Já o segundo resvala na ingenuidade, ao assinar suas mensagens com um incrível ''''Este vosso imortal inimigo''''. A hesitação de La Touche em propor uma trégua, a habilidade de Jerônimo de Albuquerque em não respeitá-la, o mau planejamento e até a alegada venalidade do capitão francês teriam determinado a resolução final da história. Mas ainda sobram muitas interrogações: La Touche teria recebido (e aceito) vantagens indenizatórias dos portugueses após ser derrotado por Albuquerque? Quais os reais motivos de sua prisão, por quase 3 anos, na Torre de Belém, em Lisboa? Os autores esquadrinham e resumem todas as possibilidades, acrescentando novos dados à rápida aventura da França equinocial. Que ainda deve render muito. O próprio La Touche, ou senhor de La Ravardière, chegou a descrever o Brasil, literalmente, como ''''um país maravilhoso que se poderia chamar paraíso terrestre''''. Difícil saber se era autêntico, mas como sempre, entravam aí as costumeiras promessas de tesouros intocados e visões de paraísos. Porque, convenhamos, seria muito difícil o convencimento geral apoiado apenas no duro confronto com a realidade. Elias Thomé Saliba é historiador, professor da USP e autor, entre outros livros, de As Utopias Românticas

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