Um passeio pelo Louvre em retratos

Instituto Moreira Salles abre mostra e lança livro sobre série do fotógrafo Alécio de Andrade feita no famoso museu

Camila Molina, O Estadao de S.Paulo

22 de abril de 2009 | 00h00

Alécio de Andrade (1938-2003) foi mais que fotógrafo: era também pianista e poeta. Residente em Paris, o carioca realizou um trabalho célebre por quase 40 anos: nos espaços múltiplos do "maior museu do mundo", o Louvre, fotografou seus visitantes, de forma poética, em nada menos do que 12 mil imagens. Agora, dentro da programação do Ano da França no Brasil, o Instituto Moreira Salles apresenta um recorte dessa série com a abertura, amanhã, da mostra O Louvre e Seus Visitantes, acompanhada da edição de livro com prefácio do filósofo e sociólogo francês Edgar Morin e ensaio do acadêmico Adrian Harding. A exposição, com curadoria de Hélène Lassalle e Jean Marchetti, reúne 88 obras em preto e branco."O traço comum das fotografias que apresento talvez seja devolver a esse lugar tão visitado aqueles momentos de intimidade do público com as obras. De um momento para o outro, o visitante vive o encontro com uma obra ou mesmo com um detalhe dessa obra que vai comovê-lo mais do que qualquer outra coisa. Foi isso o que quis registrar", afirma Alécio de Andrade, no depoimento que abre o livro.Edgar Morin, em seu ensaio, explica que as imagens de Andrade "permitem adquirir uma visão em espelho", ou seja, o belo se apresenta em diferentes faces, todas contidas na mesma foto - a beleza das obras (tantas delas tão conhecidas, vistas ao vivo ou não, porque estão em nosso imaginário), a contemplação do outro, o visitante flagrado em encantamento pelo quadro ou escultura que vê no museu; o olhar do fotógrafo para aquele momento, captando até mesmo "maravilhosas atitudes corporais" do espectador; e, por fim, a nossa própria visão de tudo isso condensada em um retrato. "O imaginário começa com a imagem-reflexo, que ele dota de um poder fantasmagórico, a magia do duplo", escreve ainda Morin.Andrade iniciou a série O Louvre e Seus Visitantes em 1964 e é curioso relacionar agora esse trabalho com o similar e recente do alemão Thomas Struth, que, no início dos anos 2000, também fez retratos de pessoas em museus - dele, uma das imagens mais conhecidas é de um grupo de crianças sentadas no chão e ouvindo as explicações sobre Las Meninas, de Velázquez no Prado. Mas as fotos de Struth têm algo de congelado no tempo, o que não transparece nas imagens de Alécio de Andrade. Os retratos do brasileiro têm vivacidade, humor (três freiras vêm o quadro das Três Graças nuas), descontração - há imagens, por exemplo, de visitantes exaustos descansando -, e revelam algo do "instantâneo". Como são imagens feitas durante décadas, vê-se nos detalhes das roupas a passagem do tempo e há esse jogo também entre o antigo e o atual. Serviço O Louvre e seus Visitantes. Instituto Moreira Salles. Rua Piauí, 844, 1.º andar, Higienópolis, 3825-2560. 13h/19h (Sáb. e dom., 13h/18h; fecha 2ª). Grátis. Até 21/6. Abertura amanhã, às 19h30

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.