Um olhar teatral sobre a arte de voar com graça

PONTO DE VISTA: Tive a honra de assistir a um desses ensaios, sentado na primeira fileira, com a multidão de crianças endiabradas às minhas costas. Depois da apresentação dirigi-me aos camarins para conversar brevemente com os bailarinos e apreender um pouco mais de perto a sua aura. Um tanto perdido pelos bastidores do teatro, pus-me a seguir uma bailarina escadaria acima, acaso que me deu a ver um fenômeno tão simples quanto faustoso: a dilatação dos músculos de sua batata da perna. O que parecia no palco esbelta pluma agora relaxava e ganhava dimensões insólitas - aquela panturrilha monstruosa estava grávida da coreografia inteira. Se eu a rasgasse com os dentes, saltariam de lá toda a Companhia e as crianças. E talvez a própria Nijinska. Lembrei-me da definição que Machado de Assis dá de Terpsícore, a deusa da dança, visto pelo amor à primeira vista que Porfírio devota à sua Glória: "Da rua, Porfírio cravou nela uns olhos de sátiro, acompanhou-a em seus movimentos lépidos, graciosos, sensuais, mistura de cisne e cabrita."A escadaria encaracolou-se e acabou de novo no palco, onde os bailarinos já se achavam reunidos para ouvir as observações superpontuais da ensaiadora. A dona da prodigiosa panturrilha esparramou-se no linóleo sem me notar. Eu é que de repente notava no palco aqueles corpos todos, ao mesmo tempo mínimos e cavalares, alongando-se, massageando-se, cochichando-se, com a preguiça atenta de guerreiros que lambem as feridas após a batalha. Senti-me logrado, porque o que pareciam pétalas revelavam-se carne e osso em corpos-corações.Todos são misturas "de cisne e de cabrita". Editado do texto do ator vadim nikitin publicado no livro

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