Um olhar sensível dos cinemas de rua, pela lente do fotógrafo Sergio Poroger

Um olhar sensível dos cinemas de rua, pela lente do fotógrafo Sergio Poroger

Imagens estão na exposição 'Cine Mu(n)do', que tem curadoria de Bob Wolfenson e ocupa a estação Santa Cecília, do Metrô, até dia 30 de abril.

Eliana Silva de Souza, O Estado de S.Paulo

17 de abril de 2019 | 03h00

A produção cultural de um povo pode mostrar detalhes de como vive, pensa, age sua sociedade, e alguns detalhes dão pistas da importância que esse conhecimento tem. E é isso que podemos deduzir ao observar as imagens captadas pelo fotógrafo Sergio Poroger, na exposição Cine Mu(n)do, que tem curadoria de Bob Wolfenson e que ocupa a estação Santa Cecília, do Metrô, até dia 30 de abril.

Na mostra, que é composta por 20 fotos, o paulistano de 65 anos fotografou cinemas de rua pelo Brasil, pelos Estados Unidos e pela Holanda, mostrando pessoas, fachadas e detalhes que muitas vezes passam despercebidos. São registros de hábitos que estão cada vez mais raros em sociedades como a nossa, que estamos observando alguns desses marcos serem desprezados. Caso recente do icônico cine Belas Artes, que busca uma forma de sobreviver e está em contagem regressiva para conseguir patrocínio e continuar sua história com a cidade de São Paulo. 

Poroger conta que os cinemas de rua foram parte marcante de sua infância. “Cresci vendo desenhos animados aos domingos com meu pai no antigo Cine Metro, na Avenida São João, no centro de São Paulo”, revela o fotógrafo, que ressalta o valor do senso coletivo que o cinema promove e que cresce quando inserido no espaço público, fora da clausura dos shoppings. “Minha motivação, então, se coloca nessa mistura de nostalgia e tentativa de preservação, nem que como registro de uma experiência artística e urbana que hoje, ao menos no Brasil, está sob ameaça.”

Atento aos sinais desse desapego com os símbolos culturais, Poroger diz acreditar que, fazer esses registros, de certa forma é também uma tentativa de ajuda na preservação deles. “Enxergo o meu trabalho como uma pequena contribuição para que essa experiência continue pulsando, nem que seja no imaginário popular, fotográfico”, 

Como todo fotógrafo, Sergio Poroger é, na verdade, um contador de histórias. As imagens que capta refletem algum fator ou acontecimento, que juntando uma a uma traçam o perfil de uma época e sociedade. Em suas recordações, por exemplo, estão as imagens dos cinemas de rua que frequentava e que, em sua maioria, foram engolidos pela dinâmica da cidade. “Passe hoje na frente do prédio que um dia foi o Cine Metro, por exemplo, e verá que não há indícios de que ali havia um espaço de celebração da arte e da coletividade. Isso é triste, grave. Sem memória, sem preservação, o futuro paga caro.”

Na exposição, segundo o fotógrafo, o público verá pessoas anônimas e comuns que fazem a magia do cinema. “A ideia foi transformar essas personagens em verdadeiras protagonistas. Para que o cinema viva, é preciso ter a pessoa que vende os ingressos, que troca os letreiros das fachadas, que substitui os cartazes, que vende a pipoca, que projeta os filmes. Sem elas, não haveria cinema. Ou ao menos não o cinema que aprendi a amar. Cine Mu(n)do serve de homenagem a essas pessoas.”

Nessas viagens, o fotógrafo registrou os mais variados cenários, recolhendo detalhes da sétima arte. Foram diversos cenários, dos grandes centros a pequenas localidades. Ele conta que foi um trabalho que o ajudou a conhecer costumes dos povos a partir da observação. 

“Os cinemas de rua não falam apenas sobre a história da indústria cinematográfica, mas, cada qual à sua maneira, ilustram dinâmicas sociais das cidades que os hospedam, e transformar esses encontros em imagem foi – e tem sido – o um grande desafio”, conta, ressaltando “a importância da curadoria do Bob Wolfenson para que os resultados dessa jornada alcançassem seu potencial máximo”.

E finaliza, destacando ter carinho especial pelo retrato da gerente do cinema mais antigo de Amsterdam, inaugurado em 1912. “É ela que se desdobra em mil funções para garantir o funcionamento do lugar, é gerente, bilheteira, serve o café da lanchonete e ainda me ajudou a convencer a pequena plateia de uma sessão a permitir o uso de uma das imagens da exposição. É uma dessas histórias que a gente só conhece se aventurando por aí.”

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