Um olhar ligeiramente defasado sobre o mundo

Tudo bem, o Agente 117 não é o 86, que o espectador brasileiro conhece da televisão, mas ambos vêm dos anos 50 e 60 e possuem características comuns. São homens errados nos lugares certos, o que não impede que terminem realizando grandes coisas, a despeito do que se pode definir como sua inadequação ao mundo. O Agente 86, com Steve Carrell e Anne Hathaway, estreou há algumas semanas. É divertido, mas inócuo. Você ainda não terminou de ver e já começou a esquecer o filme de Peter Segal. A superprodução francesa de ação (e comédia) Agente 117 não é assim descartável. Assista ao trailerÉ inteligente e, na entrevista acima, a atriz Bérénice Bejo, mulher do diretor Michel Hazanavicius, não exagera ao dizer que o filme é assez intello (bem intelectual). Com base nos diálogos de Jean-François Halin, Hazanavicius cria uma espécie de pasticho televisivo metamorfoseado de clin d''oeil (piscar de olho, naquele sentido da cumplicidade) cinematográfico. O Agente 117 é cheio de referências a filmes e diretores famosos, mas você não precisa se preocupar em identificá-las todas. O importante é a fruição, mesmo que ela só se complete se o espectador estiver pensando no besteirol de que está rindo (e que, portanto, não é só um besteirol).Algumas cenas de Agente 117, de tão elaboradas, evocam - em outro contexto - o humor cerebral de Jacques Tati, mesmo que Jean Dujardin não seja M. Hulot. Toda a festa na embaixada é, como diriam os franceses, remarquable. O Agente 117 se empolga dançando sozinho na pista e, quando inicia uma conversa sob os efeitos da bebida, diz tanto nonsense - e com tanta seriedade - que é expulso do local. Embora não seja seu objetivo, Hazanavicius não se furta a introduzir um toque de gauchisme (esquerda) quando o herói assume seus preconceitos contra o islã ou faz discursos progressistas sobre as relações entre o Ocidente e o Oriente Médio. Mas isso é só mais um piscar de olhos. O filme logo desmonta o próprio discurso político, mostrando que, embora a ação se passe no passado, é atual e tudo termina assimilado - e neutralizado - neste grande circo em que se transformou o mundo midializado pela televisão.Na entrevista, ao elogiar o ator Jean Dujardin, que faz o personagem-título, o diretor disse que ele tem alguma coisa do jovem Jean-Paul Belmondo, menos o dos filmes de Jean-Luc Godard e mais os das comédias de ação de Philippe De Broca - que, aliás, filmou no Brasil O Homem do Rio, em 1963/64, mais ou menos na mesma época em que se passa o segundo filme do Agente 117, em finalização. Dujardin é ótimo vestindo ''ténue de soirée'' (smoking) para suas palhaçadas. E o filme tem a mulher do diretor, Bérénice Bejo, evocando as grandes estrelas do cinema. Não são muitos os filmes assim que ascreditam tanto na inteligência do público.

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