Um olhar estrangeiro sobre Paris

Atriz francesa Julie Delpy fala de 2 Dias em Paris, trabalho quase autobiográfico

Franthiesco Ballerini, O Estadao de S.Paulo

14 de março de 2008 | 00h00

Após a indicação para o Oscar por Antes do Pôr-do-Sol (2005) e dois filmes da trilogia das cores do diretor polonês Krzysztof Kieslowski (A Igualdade É Branca e A Fraternidade É Vermelha), a atriz francesa Julie Delpy resolveu tocar o projeto mais autobiográfico da sua vida. Em 2 Dias em Paris, que estréia hoje, Julie é a fotógrafa francesa Marion, que mora nos EUA e volta à França de férias com o namorado Jack (Adam Goldberg) para a casa de sua família. Seus pais na vida real interpretam os próprios papéis no filme. Com roteiro, direção e papel principal dela mesma, é uma comédia sobre as impressões pessoais de Julie sobre seu país, visto pelo olhar estrangeiro. Na entrevista ao Estado, ela fala desse trabalho e de outros que pontuaram sua carreira.Por que um filme autobiográfico?Não é só uma história sobre mim, mas uma necessidade de falar de relacionamentos, incompreensões entre homens e mulheres, medo de comprometimento, além das diferenças culturais entre norte-americanos e franceses. Mas há muito de mim, minhas experiências, a maneira como eu divido minha vida entre França e EUA.Por que escolheu Adam Goldberg para o papel principal?Ele é engraçado não só quando dialoga, mas também por seu próprio visual, especialmente quando encena uma seqüência de dor ou raiva. E eu precisava disso, de alguém que imprima comicidade na dor e na raiva.Embora seja uma comédia, você não acredita que seu filme reforça estereótipos sobre os franceses, aqueles largamente enraizados na mentalidade norte-americana, como de que todos os franceses são voyeurs ou abertos sexualmente?Como é uma comédia, fiz as coisas parecerem um pouco maiores do que são, o que não significa que não aconteçam. Os franceses são muito abertos sexualmente, amam comida e alguns taxistas são chatos. Dirigir lá deve deixar qualquer um louco. Talvez por isso os taxistas sejam abusados com os clientes. Não sou americana, não vejo a França como americana. Quis dar um luz sobre como Jack vê a França, de modo que 2 Dias em Paris tem uma visão dupla da cultura francesa.Existe algo que ainda causa estranhamento em ambas as culturas?Sou acostumada a todos os hábitos franceses. Nos Estados Unidos, ainda acho estranha essa mania de misturarem religião com política. A frase ''God bless America'' (Deus abençoe a América) sempre me soou engraçado, mas assustador.Você estreou nos cinemas nas mãos de Jean-Luc Godard, no filme Détective (1985). Você pode dizer que peso esse trabalho teve na sua vida?A integridade de Godard com o que filmava sempre foi muito inspiradora para mim. Godard ainda faz filmes de Godard 50 anos depois da nouvelle vague. Isso é impressionante.O que diria da trilogia de Krzysztof Kieslowski?Eu estive muito envolvida em A Igualdade É Branca. Krzysztof era genial, mas fumava demais (risos).Como está seu próximo filme como diretora, roteirista e atriz, The Countess (A Condessa)?Estou filmando. É uma história obscura e não sei explicar por que resolvi fazê-la. Vou me dar conta depois que terminar de filmar, como foi com 2 Dias em Paris.

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