Um Natal entre grandes intelectuais

Geza Vermes e Garry Wills falam sobre Jesus e Robert Alter analisa o lado literário da Bíblia, tema de Karen Armstrong

Antonio Gonçalves Filho, O Estadao de S.Paulo

23 de dezembro de 2007 | 00h00

Com demasiada freqüência heréticos distorceram as Escrituras para seus próprios fins, defende uma das maiores especialistas em temas religiosos, a inglesa Karen Armstrong. Não é seu caso, garante a autora. Ela concorre em prestígio com outros três estudiosos da Bíblia que têm esta semana seus livros lançados por quatro diferentes editoras: o húngaro Geza Vermes, a maior autoridade acadêmica nos Manuscritos do Mar Morto, e os norte-americanos Robert Alter, professor de literatura hebraica, e Garry Wills, ex-seminarista que se tornou professor de história e foi agraciado com o prêmio Pulitzer por Lincoln at Gettysburg, análise original sobre a influência do pensamento grego nos discursos do presidente americano Abraham Lincoln.Três desses livros são recentíssimos: O Que Jesus Quis Dizer (Rocco, 152 págs., R$ 25), de Garry Wills, Natividade (Record, 190 págs., R$ 32), de Geza Vermes, e A Bíblia - Uma Biografia (Zahar, 276 págs., R$ 39,90), de Karen Armstrong. O quarto, de Robert Alter, A Arte da Narrativa Bíblica (Companhia das Letras, 288 págs., R$ 46), foi publicado em 1980 e não se tornou um clássico por acaso. A associação imediata que se faz entre Alter e Auerbach é justa: poucos intelectuais estudaram com tanta paixão o caráter literário das antigas Escrituras, guiando o leitor pela arte narrativa bíblica. Tanto que Alter se recusa a usar a designação Velho Testamento. Para ele, as narrativas do Velho e do Novo foram escritas em línguas e épocas diferentes e partem de pressupostos literários distintos. Portanto, não lhe pareceu correto reunir os dois testamentos num único quadro de referência crítica.Alter lança nova luz sobre a Bíblia com sua abordagem diferenciada e o exame minucioso dos textos bíblicos, mas, como sugere o próprio título de seu livro, o foco é a narrativa literária, o que o faz criticar até a versão da Bíblia feita pelo rei James. Faltaria a ela, segundo Alter ''''clareza e precisão filológica''''. Geza Vermes, em Natividade, embora não discuta o papel da arte literária na conformação da narrativa bíblica, segue alguns passos de Alter ao analisar as narrativas dos evangelistas. Em busca de suas contradições e das traduções manipuladas pelos mesmos para ''''agradar'''' a um público de leitores versados em grego, mas não em hebraico, Vermes argumenta, por exemplo, que Mateus usou palavras do profeta Isaías para dar sua interpretação pessoal sobre a concepção virginal de Maria. Nesse sentido, o seu é o livro mais polêmico. Ele não teme a discussão. Afinal, conheceu todos os lados da religião: nasceu numa família judaica, foi criado como cristão e retornou às suas raízes quando maduro.Logo nas primeiras páginas desafia o leitor cristão a encontrar nos Evangelhos qualquer indicação de que José, pai de Jesus, fosse um velho. Essa é uma idéia que teria origem no proto-evangelho de Tiago - um evangelho apócrifo, portanto. Ele também afirma que o Novo Testamento em lugar algum sugere que os visitantes do Oriente fossem reis. Magos, sim, mas não um trio. ''''Também em nenhum lugar está escrito que havia três reis, número certamente deduzido da quantidade de presentes relacionados em Mateus'''', supondo que cada um deles trouxesse nas mãos ouro, incenso e mirra. E se fosse apenas um portando os três presentes? As narrativas da infância de Jesus, das quais deriva a tradição do Natal, constituem, segundo Vermes, ''''uma grande excentricidade dos Evangelhos'''', argumentando que apenas dois dos evangelistas fazem referência à chegada temporal do Messias). Geza Vermes é briguento. Já Garry Wills, não.Wills assume que o seu não é um livro acadêmico, mas uma obra de devoção. Nada de ''''Jesus histórico''''. Para Wills, Jesus como uma pessoa não existe fora dos Evangelhos ''''e a única razão de sua existência é a fé dos seus autores na ressurreição''''. A leitura dos evangelhos ''''não é suficiente para saber o que Jesus fez ou disse''''. Seus atos e palavras, sim. Muita gente embarcou na canoa errada interpretando literalmente os textos evangélicos. Wills cita uma passagem de Mateus (Mt. 10,34) em que o evangelista transcreve as palavras de Jesus: ''''Não penseis que vim trazer paz à terra, e sim a espada.'''' O cineasta italiano Pier Paolo Pasolini, em seu filme O Evangelho Segundo Mateus, conferiu à frase um caráter revolucionário. Os cruzados, com base nessas palavras, teriam incorrido no mesmo erro, segundo o ponto de vista de Wills. Mas Cristo estaria dizendo que a espada seria usada contra ele e os seus, não por eles, defende. E cita novamente Mateus (Mt. 26,52) num diálogo entre Jesus e Pedro: ''''Põe a espada na bainha, pois quem toma a espada, pela espada morrerá.''''

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