Jared Soares/The New York Times
Jared Soares/The New York Times

Um museu online de cartas mostra a vida em épocas de guerra

O novo Museum of American War Letters disponibiliza uma variedade de cartas escritas de zonas de batalha

Colin Moynihan, The New York Times

30 de março de 2021 | 20h00

“A explosão o dividiu em dois, absolutamente em dois”.

A voz na fita soava indiferente, quase lacônica, parte de uma cápsula do tempo descrevendo um dia sangrento numa guerra interminável que matou um número incontável de combatentes e civis.

As forças americanas estavam estacionadas no Vietnã quando o coronel George S. Patton, filho do famoso general da Segunda Guerra Mundial, gravou essa mensagem arrepiante para sua mulher, Joanne, em 1968. À medida que os soldados se locomoviam para o leste da base de Lai Khe, uma área chamada Catcher’s Mit, um combatente vietnamita solitário atirou uma granada contra um blindado americano, matando um membro da artilharia e ferindo um soldado.

“O comandante está vivo neste momento”, relatou Patton um dia depois do ataque. “Mas um braço foi arrancado e ele perdeu o antebraço do outro. O que o salvou foi seu colete à prova de balas”.

Patton faz uma pausa e nesse momento se ouve uma explosão ao fundo, e depois continua seu relato, dizendo que essa “é uma guerra longa, dura”.

Esta gravação pode ser ouvida pelo público pela primeira vez na coleção de um novo museu de história dedicado às cartas escritas em épocas de guerra por membros das forças armadas dos Estados Unidos. O Museum of American War Letters, como é conhecido, foi inaugurado no domingo, um dia antes do Dia Nacional dos Veteranos da Guerra no Vietnã.

Trata-se de um museu interativo online projetado que oferece aos visitantes a sensação de estar caminhando por um prédio físico com piso, teto e paredes.

Seu fundador, Andrew Carroll, é diretor do Center for American War Letters na universidade de Chapman, em Orange, Califórnia, e já editou quatro antologias de cartas escritas por soldados e militares. A primeira “ala” do museu é dedicada inteiramente à Guerra do Vietnã, mas ele pretende expandir para outros conflitos com a correspondência que colecionou e conservou desde a Guerra de Independência dos Estados Unidos até os dias atuais.

Carroll, 51 anos, desejava tornar as cartas, que qualifica como “uma excelente literatura desconhecida dos EUA”, disponíveis para o maior público possível.

“Essas cartas humanizam os homens e mulheres que serviram o país e mostram seus sacrifícios. São incrivelmente bem escritas e traduzem fatos emocionantes do nosso passado, tornando a história tão viva que encontra eco junto às pessoas que acham que não gostam de história”.

O custo da criação do museu foi coberto por uma subvenção de US$ 30.000 do National Endowment for the Humanities para a universidade Chapman, destinada ao projeto. A entrada é grátis.

Os que visitam o website usam um mouse ou teclado para caminhar pela réplica de uma longa galeria com piso de madeira, paredes escuras e com uma luz fosca, iluminação embutida. As cartas estão expostas como imagens iluminadas e acompanhadas por um texto com o histórico dos autores e o contexto dos eventos que elas descrevem.

A galeria conta também com vídeos curtos da música que foi grande sucesso em 1966, The Ballad of the Green Berets, enfermeiras, as experiências das tropas afro-americanas, o massacre de My Lai, os tiroteios em Kent State e os Pentagon Papers.

O filho de Patton, Benjamin Patton, disse que as cartas trocadas por seus pais mostram como a família de um militar confrontava a ansiedade e a separação em época de guerra. Em uma das cartas, sua mãe alerta seu pai para não ser pego no que ela chamou “ferocidade da batalha”.

Quando a Livraria do Congresso e outras instituições reuniram as cartas, Benjamin Patton disse que achava que Carrol se certificaria de que as mensagens trocadas por seus pais ficariam acessíveis ao público.

“Do contrário acabariam sendo esquecidas. Alguém me disse que, quando se perde uma vida, é como queimar uma biblioteca, mas não inteiramente quando você tem essas cartas e essas correspondências em áudio”.

Ele vem colecionando essas mensagens há mais de duas décadas, motivado pela sua proximidade e urgência, seu valor como artefato histórico e como elas iluminam as vidas de americanos comuns confrontando eventos extraordinários.

Ele foi um estudante na universidade de Columbia que não gostava de história, até que dois acontecimentos em 1989 o fizeram entender o poder das cartas. Ele perdeu sua própria coleção de fotos, diários e cartas, incluindo uma de um amigo que esteve em Pequim durante a violenta repressão dos estudantes pró-democracia na Praça Tiananmen, quando um incêndio destruiu a casa do seu pai em Washington.

Logo depois, um primo mais velho lhe deu uma carta que havia escrito décadas antes quando serviu o Exército americano durante a Segunda Guerra Mundial. Na carta esse primo, James Carroll Jordan, descreveu para sua mulher Betty Anne sua chegada ao campo de concentração de Buchenwald logo após ser libertado pelos americanos, em 1945. “Ele descreveu em primeira mão os horrores do Holocausto”, disse Carroll. “A carta tornou o Holocausto muito mais real”.

Em 1998, Carroll pediu ao colunista Dear Abby para publicar um apelo aos americanos para doarem cartas escritas em época de guerra para preservação. Milhares de pessoas responderam, tornando o apartamento de Carroll em Washington um depósito improvisado lotado de caixas com cartas.

Atualmente um canto do apartamento se transformou num estúdio de design com gráficos do museu e outros desenhos expostos em quatro pranchas de madeira.

No futuro cada ala do museu incluirá também cerca de uma dezena de cartas e vídeos numa mostra permanente, escolhidas por seu valor simbólico. Alguns itens virão dos 160.000 bits de correspondência de guerra que ele reuniu na universidade de Chapman, desde uma carta escrita com bico de pena, do século 18 em que as colônias britânicas na América eram exortadas a se rebelarem contra a coroa, até uma carta datada de 1918 escrita por um soldado descrevendo um encontro com um futuro escritor: “um tenente da Cruz Vermelha chamado Hemingway, que vem de Oak Park”.

O objetivo também é incluir cartas que abrangem as guerras, mas organizadas por tópicos: cartas de amor, por exemplo, cartas censuradas pelas autoridades militares e aquelas descrevendo experiências de guerra por participantes bem conhecidos, como o escritor Kurt Vonnegut.

Além disso, famílias de veteranos poderão criar suas próprias galerias, acessíveis apenas para elas.

Carrol disse ter começado com um dos conflitos americanos mais controvertidos, uma guerra que matou mais de 58.000 americanos e, segundo algumas estimativas, até dois milhões de vietnamitas civis, e que foi promovida pelo presidente Lyndon Johnson como uma luta heroica contra o comunismo - em parte porque as cartas dessa época refletem uma mistura de política, princípios e emoções que ainda estão presentes nos debates sobre o uso da força militar.

Tradução de Terezinha Martino

 

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