Um monólogo para Eurídice

Em O Senhor Vai Entender, o escritor e crítico italiano Claudio Magris inverte [br]o mito de Orfeu e Eurídice ao dar voz àquela que sempre viveu nas sombras

Entrevista com

Ubiratan Brasil, O Estadao de S.Paulo

29 de novembro de 2008 | 00h00

O monólogo é intrigante: em uma casa de repouso, uma mulher expõe a um senhor oculto os motivos que a convencem a ficar ali. Ao contrário das demais, ela não quer contato com o mundo exterior, onde lá manteve grande paixão por um poeta admirado por muitos. É a partir desse desenrolar de fios que o escritor e crítico italiano Claudio Magris construiu, em O Senhor Vai Entender (Cia. das Letras, tradução de Maurício Santana Dias, 60 págs., R$ 28,50), uma nova versão do mito de Orfeu e Eurídice.Uma versão, no entanto, invertida, uma vez que dá voz àquela que viveu sempre nas sombras, impulsionando a carreira do amado que, muitas vezes, cego pela vaidade, é capaz de se enamorar mais de um poema que da mulher que ama. A partir dessa escolha, Magris enobrece a força da mulher, considerada por ele muito mais valente do que o homem. "Ela quer poupar o amado e não privá-lo da capacidade de criar poesia'', comenta, em entrevista ao Estado.Lançado em 2006, O Senhor Vai Entender é outro mergulho na introspecção proporcionado por Magris, reputado como um dos grandes escritores europeus vivos. Perto dos 70 anos, ele promove aqui, como em Danúbio, relançado agora pela Cia. das Letras em sua coleção de bolso, e Microcosmos, uma narração que funde o singular e o universal, além de costurar eventos particulares a outros mais abrangentes. "A palavra", diz , "é a forma que a vida dá a si mesma para chegar à mente e ao coração." No livro, Magris explora as complexas relações entre o homem e a mulher nos dias atuais, subterfúgio para também falar de sua relação amorosa com a escritora Marisa Madieri, que morreu em 1996. Um diálogo impossível que busca exorcizar um fantasma familiar.Não parece haver muita diferença entre a casa e a vida social, diz a mulher em O Senhor Vai Entender. A ilusão da felicidade é suficiente para preencher o vazio do homem?Esse é um monólogo feminino, versão moderna do tema de Orfeu e Eurídice, na qual quem tem a palavra é a mulher. Foi ela que decidiu não voltar à vida, embora o deseje e nutra grande amor por seu companheiro. É ela que conta como e por que permaneceu no além, no reino das sombras, da morte. Segundo a tradicional condição subalterna da mulher, em geral o destino de Eurídice depende de Orfeu. Mas, aqui, a mulher fala numa misteriosa casa de repouso, símbolo do que há depois da morte. Ela fala a um presidente também misterioso, a figura de Deus que não se vê, mas é o grande construtor e o narrador, às vezes incompreensível, de toda a história. Dirige-se a ele para explicar por que decidiu não deixar aquela casa, embora o homem que ela ama tenha descido até lá para buscá-la. Escolhi a casa de repouso como metáfora da morte, mas, como sempre acontece em texto literário, há também um motivo biográfico. No texto há muitos ecos da minha história pessoal, mas transfigurados e modificados. Durante anos freqüentei uma casa de repouso, onde visitava uma senhora idosa, no centro de Trieste. E toda vez que saía ou entrava no edifício, ao ultrapassar a soleira da porta encontrava-me em um mundo diferente. Naquela casa, o tempo tinha outras dimensões, outra duração, havia outras relações, hierarquias, outros afetos, ressentimentos; outros códigos, outras luzes, outras sombras. E toda vez, ao entrar ou ao sair, eu me perguntava onde podia compreender um pouco mais o mundo e a vida, se dentro ou fora, na frente ou atrás do espelho. É por isso que surgiu daquele estado de espírito a decisão da mulher, em um extremo sacrifício de amor, de não seguir o amado, a fim de poupá-lo da terrível descoberta de que também do outro lado, no além, ainda que tão diferente, não é possível entender mais do que se entende do lado de cá, na vida. Claro, não quero expor uma concepção religiosa ou filosófica pessoal; trata-se de um estado de espírito fantástico, uma sensação, assim como às vezes podemos ter a impressão devastadora de que a vida é terrível e negativa, sem por isso professar uma filosofia pessimista, ou então achar a vida encantadora e cheia de graça, sem por isso professar necessariamente uma filosofia otimista. No fim, a mulher quer poupar ao amado a descoberta de que, se na vida vemos as coisas indiretamente como em um espelho e em um enigma, do outro lado, estamos do outro lado do espelho, que, por sua vez, é, ao mesmo tempo, um espelho e um enigma, de forma que desconhecemos o mistério da vida. Ela sabe que essa descoberta destruiria o seu amado, iria privá-lo da capacidade de criar poesia, por isso quer impedi-lo.O homem ama a mulher ou simplesmente se sente só?É claro que o homem ama a mulher. Mas a ama com o narcisismo que encontramos com freqüencia nos poetas que, como disse Milosz, muitas vezes têm "um coração frio", ou seja, podem apaixonar-se mais pelo próprio sentimento e pelo próprio amor do que pela pessoa concreta. Ele é uma mescla de uma grande e profunda paixão, ela é a sua mulher, nela ele nasceu para a vida, para o amor, para o sexo, para tudo. É também um autêntico poeta, e, ao mesmo tempo, um narciso, um egoísta; com certeza é inferior a ela. Quis narrar uma história que seja também uma verdadeira e arrebatadora história de amor, mas cercada também por toda a mesquinhez, a obstinação, a capacidade de vingança que costumam fazer parte de um amor.

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