Um mestre registra a evolução da alta-costura

Didier Grumbach veio ao País lançar seu ensaio e deu conselhos a nossos estilistas

Antonio Gonçalves Filho, O Estadao de S.Paulo

25 de junho de 2009 | 00h00

O advogado francês Didier Grumbach, presidente da federação que reúne as grifes de alta-costura na França, não é um homem nostálgico. Pragmático, Grumbach não vê como ameaça a entrada da China no mercado de moda. A bem da verdade, já quando exercia as funções de diretor da maison de Yves Saint Laurent, não considerava inconciliáveis a alta-costura e a confecção. O próprio Saint Laurent, segundo Grumbach, foi muito mais inovador no prêt-à-porter que na alta-costura, que vem perdendo clientes década após década desde os anos 1940. Na França, eles eram 2 mil em 1947, diminuíram para 200 nos anos 1970 e agora não passam de 20 privilegiados, segundo cálculos registrados em seu livro Histórias da Moda (tradução de Dorothée de Bruchard, Joana Canêdo e Flávia Varella, 456 páginas, R$ 99), que a editora Cosac Naify acaba de lançar no Brasil com a presença do autor, convidado da São Paulo Fashion Week (SPFW), que terminou segunda-feira.Grumbach vem ao Brasil regularmente há quase uma década como presidente da Federação Francesa da Costura, do Prêt-à-Porter dos Costureiros e Criadores de Moda. Sempre de olho no que está acontecendo aqui e em países emergentes como a China, ele diz que escreveu o livro pensando exatamente nesse mercado, ainda pouco familiarizado com a história da moda francesa. Por sugestão de amigos chineses, decidiu que essa seria uma obra essencialmente didática, que iria abarcar desde as origens da costura na época da Revolução Francesa - quando o governo concedeu às costureiras o direito de concorrer com os alfaiates - até a entrada do primeiro criador indiano eleito membro da Federação Francesa de Costura, Manish Arora, o que aconteceu apenas este ano, em que nove casas francesas apresentaram suas coleções na SPFW.A França foi o país homenageado pela SPFW este ano. Grumbach diz que essa homenagem, de certo modo, foi extensiva aos 100 anos de nascimento de madame Carven, um mito da moda francesa que há 60 anos vendia 9 mil peças de alta-costura, anunciando o tempo do prêt-à-porter no ano em que um famoso costureiro francês da época, Christian Dior, assinou seu primeiro contrato de licenciamento com empresas norte-americanas (Dior fez isso em 1949, quando Pierre Cardin deixou a sua maison na Rua Richepanse). "Madame Carven já produzia em ritmo industrial em 1948, quando Jacques Faith criou sua empresa de perfumes e Dior inaugurou sua casa de prêt-à-porter de luxo em Nova York", diz. E isso não diminuiu em nada a qualidade de suas roupas. "Apenas democratizou o acesso a modelos antes exclusivos", argumenta.Grumbach carrega nas veias o gene do prêt-à-porter. Aos 72 anos, o ex-presidente da maison de Yves Saint Laurent e descendente da família C. Mendès, pioneira no licenciamento de grifes da alta-costura francesa, cita com orgulho no livro a empresa familiar, não como uma mera firma industrial, mas como uma "instituição pública" que ajudou a projetar a moda francesa no mundo. "Nos anos 1970, nenhuma firma italiana tinha condições de responder às exigências técnicas e comerciais da Valentino", lembra, traçando um paralelo com as fábricas chinesas que hoje atendem a encomendas internacionais e exportam o design das grifes Jefen e Exception para a França - dois nomes que já marcaram presença na Semana de Moda de Paris."Não diria que a moda chinesa é a moda do futuro, mas sua indústria de confecção é forte, embora ainda persista certo preconceito sobre a qualidade de seus produtos, o que irá mudar quando designers chineses ficarem mais conhecidos no mercado internacional", prevê, citando o caso do Japão que, nos anos 1950, tinha a mesma imagem e mudou graças a estilistas como Yohji Yamamoto e Issey Miyake. O último foi adotado por Grumbach por sua sobriedade.O problema é que a internet e os falsificadores provocam cada vez mais desânimo entre os criadores de moda. Com os desfiles transmitidos ao vivo, os chineses podem lançar no dia seguinte tudo o que a Semana de Moda de Paris acabou de apresentar. A situação é crítica, reconhece Grumbach, mas os novos criadores podem tirar partido dela, especialmente os costureiros de países emergentes. "Com a globalização, é impossível falar em moda francesa ou moda brasileira, porque os códigos culturais se cruzam e a reprodução se dá de modo tão vertiginoso e devastador que a noção de propriedade intelectual ficou obsoleta", analisa Grumbach. "Em todo caso, essa mesma globalização possibilita que criadores de países emergentes venham a colaborar com grifes francesas consagradas sem que ao menos participem de desfiles em Paris." Como? Justamente por meio da internet. "Um designer brasileiro pode pensar um modelo em São Paulo para ser produzido em qualquer parte do mundo, porque a moda, hoje, é sobretudo domínio tecnológico."Em seu livro, Grumbach destaca alguns emergentes, como o português Felipe Oliveira Baptista, mas não cita nenhum estilista brasileiro capaz de rivalizar com Marc Jacobs ou Olivier Theyskens. Reconhece que o Brasil é imbatível em moda de praia, mas que tem ainda muito a aprender em logística de exportação e competitividade. "O Brasil ainda não está no fashion system porque falta uma política de exportação e distribuição, que tem de ser rápida", analisa, recomendando aos criadores brasileiros que busquem parceiros fora. "Quanto mais internacional a marca, mais chances ela terá." Isso vale também para os chineses, que produzem, mas ainda não exportam seus criadores. "Eles podem ser agressivos na produção, mas não são capazes de concorrer com a Zara e outras redes de fast fashion."

Encontrou algum erro? Entre em contato

Tendências:

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.