Um mergulho na tragédia do ser ou não ser

O Fingidor, de Samir Yazbek, com Hélio Cícero comemorando 30 anos de carreira, é conjunção feliz de nomes talentosos

Crítica Pascoal da Conceição, O Estadao de S.Paulo

15 de maio de 2009 | 00h00

Um dia desses, me peguei dizendo que não ia mais fazer teatro. Chorei, como fazia tempo não chorava, de dó de mim mesmo, coração pesado, magoado pelas desventuras que a vida nos reserva. Então, fui ao teatro. Minha esperança é que naquele mundo perdido que a gente fica, depois de ver desaparecendo a vontade de fazer uma coisa que se gosta tanto, minha esperança é que uma fala, uma cena, uma voz, uma deixa, viesse como oráculo, uma revelação e me tirasse desse poço fundo de desgosto, desengano, amargura, onde sem querer me vi jogado nas voltas que o mundo dá.Mas deixa isso pra lá. Eu quero falar de O Fingidor, do Samir Yazbek, que está em cartaz lá no Tuca, e falar do Hélio Cícero que me deixou em estado de graça, com seu fingidor.Eu já tinha visto a peça há 10 anos, já tinha amado, aplaudido, essas coisas todas. Aí, falei comigo mesmo, que não ia ver. Não precisava. Ou seja, no meu erro, julgava visto o que não vi. É triste, mas os sentidos da gente às vezes são possuídos por umas certezas enganosas que vão nos tornando previsíveis, grosseiros e idiotas. Como é que eu pude me esquecer que uma apresentação de teatro é a flor nascida do seu tempo, semelhante a tantas flores de primaveras passadas, mas flor de hoje, da sua hora, nascida, colhida, uma vida breve que vai morrer e secar? Tem gente que me pergunta se não é enfadonho representar todos os dias a mesma coisa. Que equívoco! E não são só pessoas de fora do teatro, sei de artistas que não só pensam como representam de maneira repetitiva, burocrática, desprezando o que o teatro tem de mais maravilhoso que é esse parentesco com o vivo, o eterno presente. Pra mim não. Nunca, nunca, nunca uma apresentação é igual a outra, tão certo como esse dia nunca foi e nunca será igual a nenhum outro. É o frágil, o efêmero na nossa frente. Quem viu viu, quem não viu, depois, vai só saber o que foi contado pelos olhos outros, testemunhas que foram do privilégio de estar presente ao acontecimento que é uma apresentação no teatro. Hélio Cícero está fazendo 30 anos de carreira, uma exposição no saguão nos ilustra sobre a sua longa trajetória, mas o que ele está mesmo é no seu momento, encho a boca pra dizer: um ator brasileiro, nosso, comovente, pronto pra colher os adjetivos mais amorosos da nossa língua, que possam descrever o prazer que é ver um ator de tão rara qualidade no palco. Quando seu fingidor Fernando Pessoa apareceu em cena, perfumou o ar como uma entidade, deixando meu pensamento em silêncio. Marchando pelo palco, ingênuo, virou na minha frente Mazzaroppi, Arlequim, Macunaíma. Depois devorando biscoitos ressoou em mim a voz de Oswald de Andrade: "A massa vai comer o biscoito fino que fabrico!!" Eu ri com meu corpo todo, aos trancos e solavancos, e fiquei com os olhos marejados como um Mario de Andrade feliz. Lembrei do Ankito, que acabou de morrer, do Oscarito, Grande Otelo, Zé Trindade, fiquei tão feliz, tão agradecido, precisado mesmo de mandar pra fora essa notícia tão alvissareira: "Os atores acabam de chegar, os melhores atores do mundo, estão entre nós..." Aliás, ouvi dizer e acredito, que o Walter Breda esteve supremo lá na Cultura Inglesa. Quem viu O Ensaio, direção do Tolentino, sabe do grande ator a que me refiro. É pra sair do teatro revirado e agradecido, com aquela alegria de cachorro, tendo de se conter pra não incomodar os outros. Mas O Fingidor é um encontro. Samir Yazbek criou ali alguma coisa superior, não é o Fernando Pessoa, mas a pessoa do Pessoa, nossa pessoa, qualquer pessoa na tragédia de ser ou não ser em que estamos todos mergulhados; sobretudo vivida junto com um ator do calibre do Hélio Cícero, que brilha e ilumina os detalhes mais sutis da criação, indo na frente, como um cego, nosso guia nos labirintos paridos pela imaginação do autor. Feliz o Samir que pode ter seu texto revelado pela criação insuperável desse grande ator brasileiro. Tomara que ele volte em cartaz com O Invisível que eu vi no Sesc Santana.Como eu disse, meu entusiasmo é alegria de cachorro: atrapalho, pulo por cima, misturo com as meditações sobre meu Tietê, mas eu estou tão feliz e agradecido que, com todo carinho, quero que muitos se sirvam desse banquete e vivam o gozo de um espetáculo com um texto estupendo, uma turma de atores na medida e um ator carregado de mistérios como um corpo tatuado. Cacilda!!! ServiçoO Fingidor. 100 min. 14 anos. Tuca (672 lug.). Rua Monte Alegre, 1024, 3670-8455. 5.ª e sáb., 21h30; dom., 19 h. R$ 40. Até 28/6

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