Um jogo hipnótico de ritmo e poesia

É o encontro de Vitor Ramil e Marcos Suzano, que intensificam ao vivo a experiência bem-sucedida do CD Satolep Sambatown

Crítica Lauro Lisboa Garcia, O Estadao de S.Paulo

14 de abril de 2008 | 00h00

Em entrevista ao Estado na semana passada, Vitor Ramil disse que reluta em produzir um DVD por não gostar de gravações ao vivo. Com razão. O momento do show tem peculiaridades que fazem as canções ganharem dimensões não alcançadas no disco, mas também os defeitos aparecem com mais nitidez. Sem contar, na maioria dos casos, com o agravante da ansiedade do público em interagir. Em Satolep Sambatown, que Ramil apresentou com Marcos Suzano sábado e ontem no Sesc Pompéia, não acontece nada disso. Longe da mesmice geral, é daqueles shows que merecem um registro para se rever.Tudo funciona como um jogo hipnótico de ritmo e poesia arrebatadores. Aí talvez, de modo intuitivo e abstrato, ilustra o conceito de rap, que se expressa em forma de embolada em O Copo e a Tempestade, ponto-chave da estética de Ramil nessa parceria com Suzano. É o momento mais descontraído, que divide o show como o CD. É quando ele se levanta da cadeira e canta a música acompanhado apenas do pandeiro de Suzano. ''Isto lembra meus tempos de trio elétrico no Sul'', ironiza o cantor, soltando uma ''poeira'' sangalesca.Bem mais expansivo do que em Longes, o cantor e compositor gaúcho estimula a capacidade de percepção do espectador, na medida em que suas letras e melodias incitam a inventividade do percussionista carioca. E vice-versa. Isto fica mais nítido, e com mais variantes, no palco do que já era no CD.Ramil se alterna em violões de cordas de aço e nylon, ambos de sonoridade encorpada e muito bem executados. Suzano corresponde na cadência do pandeiro e do cajón e com efeitos eletrônicos de seu sampler, cuja eficácia aumenta à medida que o show avança.Dentro do conceito de experimentalismo do projeto, as imagens e afirmações dos versos de Ramil traduzem a visão pessoal de uma inquietude inovadora, sem que necessariamente sejam confessionais. ''Oh vento que vem/ Pode passar/ Inventa fora de mim/ Outro luz'', diz em Invento. ''Viajei/ Ligado num segundo/ No seguinte desliguei/ Do que eu ia dizer'', descreve em Viajei. ''O tempo é o meu lugar/ O tempo é minha casa'', afirma na belíssima A Ilusão da Casa.Cada vez que Ramil reinterpreta uma canção, invariavelmente ela se torna melhor do que a versão anterior. A Ilusão da Casa, Café da Manhã (com citação de Drive my Car, dos Beatles, no final), Não É Céu, Estrela, Estrela são exemplos evidentes, bem como a épica Joquim (versão para Joey, de Bob Dylan), que ele dá de brinde no bis, e que pretende regravar. Ao contrário de Dylan, Ramil está cantando cada vez melhor e até comete umas ousadias vocais. Seu ímpeto renovador também o desata da linhagem da ''ramilonga'', embora a textura esteja na essência de Astronauta Lírico. Que Horas não São?, com participação de Katia B, tem ramagens arabescas. O dueto dos dois em Destiny, aliás, é um dos grandes momentos do show.Bem-humorado, Ramil conta histórias sobre a origem de várias das 20 canções do roteiro, como A Zero por Hora, composta na Rua Augusta, no alto do prédio de um hotel ''olhando as moças em busca de consolação'' e fazendo referências à jovem guarda. Sem medo do inesperado.

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