Um jogo fascinante de espiões

Billy Ray é um diretor ainda pouco conhecido no Brasil. Seu primeiro longa foi lançado somente em DVD - O Preço de Uma Verdade, com Hayden Christensen, baseia-se na história real do repórter da revista The New Republic que forjava grandes reportagens. O segundo, além de ser melhor, prossegue na mesma trilha de investigar personagens que forjam biografias com as quais enganam os outros e a eles mesmos. O dissimulador agora é Robert Hanssen e o filme - Quebra de Confiança - começa justamente pelo fim, com o desmascaramento e prisão do homem, que, por mais de 20 anos, foi agente duplo, fornecendo informações aos soviéticos.Hanssen foi desmascarado em fevereiro de 2001, a poucos meses do ataque às torres gêmeas e já sob a presidência de George W. Bush. Ray poderia ter feito um thriller patriótico e paranóico - afinal, o vilão dessa história é um homem que se beneficia da posição como analista de assuntos soviéticos do FBI para passar informações confidenciais ao inimigo. O problema é que Hanssen não é um vilão tradicional. É muito mais complexo. Católico praticante e devotado à família, acessa (e distribui) pornografia pela internet. De cara, após a prisão, entra o letreiro ?Alguns meses antes? e o filme decola justamente quando a superior de Hanssen no birô, interpretada por Laura Linney, recruta um jovem talentoso para a operação de caça ao agente duplo.Ao ser recrutado, Eric O?Neill não tem idéia do vespeiro em que se está metendo. Ele trabalha com escuta e fotografia comprometedoras, mas seu sonho é ser agente. Essa possibilidade se abre quando Laura Linney o convoca. O problema é que ela lhe diz somente meia-verdade - Hanssen está sendo investigado por suas atividades online, que poderão criar embaraços para o governo americano, se o caso for descoberto. Hanssen é interpretado por Chris Cooper, que ganhou o Oscar de coadjuvante por Adaptação, de Spike Jonze. O?Neill ganha a pele de Ryan Philippe, que começou fazendo caras e bocas na imitação de John Malkovich em Segundas Intenções, o Ligações Perigosas teen, e deu um salto na carreira com A Conquista da Honra (Flags of Our Fathers), de Clint Eastwood. O?Neill/Philippe é a alma de Quebra de Confiança.É por intermédio dele que o diretor conta sua história. O?Neill teve um passado de formação religiosa, o que facilita sua aproximação de Hanssen. Sua mulher não rezava pela mesma cartilha e as intervenções de Hanssen na vida do casal precipita uma crise que leva os O?Neill à beira da separação. Esse é um dos fios do roteiro de Quebra de Confiança. Os outros inscrevem o filme de Billy Ray na vertente do suspense. O espectador vai descobrindo coisas com O?Neill, projeta-se nele quando precisa se expor, em momentos de tensão muito bem conduzidos. O golpe de mestra de Laura Linney é forçar Hanssen a se arriscar cada vez mais. Por isso, ele é afastado de sua função, ganhando uma promoção que não lhe dá mais do que uma posição decorativa no birô. Ganha também esse ajudante de quem desconfia. Para conseguir continuar passando informações, Hanssen terá de sair da toca. E O?Neill estará a postos para informar a cúpula do FBI.O tema de Billy Ray é a quebra de confiança, como informa o título. Hanssen traiu seu país e a confiança nele depositada, mas O?Neill também precisa ganhar a confiança do chefe - e traí-la. O?Neill quer o cargo. Hanssen quer o quê? O dinheiro que recebe dos soviéticos é tão inacessível que não pode ser o seu objetivo. Há uma carga de frustração - ele montou estratégias e equipamentos do FBI, mas não obteve o reconhecimento pretendido. Pode ser puro narcisismo - a sua vontade de mostrar que é melhor. Mas O?Neill também precisa provar, para si mesmo e para os outros, que é o melhor. Por quê? O filme é de ação, mas na maior parte do tempo o conflito é interno. Lá pelas tantas, O?Neill percebe que pode estar virando outro Hanssen. O tema da confiança leva a outro - a discussão sobre a ética. Ryan Philippe é ótimo. O filme, também. É um exemplar dessa nova espionagem que está mudando o cinema de ação, quando Bourne toma o lugar de 007.

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