Um homem feito de interrogações

Néstor García Canclini se desvencilha de respostas tradicionais para sugerir um novo humanismo num mundo também novo

Entrevista com

Francisco Quinteiro Pires, O Estadao de S.Paulo

07 de junho de 2008 | 00h00

Néstor García Canclini é um antropólogo à procura de perguntas. O estudioso argentino, nascido em 1939, tem como ponto de partida da sua obra o exercício de um espírito crítico que abala as tradicionais respostas das ciências sociais. O campo de estudo é a cultura ou, por outra, as culturas, as suas interações, em que existem tanto convergências como choques. Professor da Universidad Autónoma Metropolitana no México, onde se radicou, Canclini propõe estudos culturais interdisciplinares que ganharam interlocução mais intensa no Brasil. Aos títulos disponíveis nas livrarias, como o clássico Culturas Híbridas, que acaba de ser reeditado, se somam agora Leitores, Espectadores e Internautas e Latino-Americanos à Procura de Um Lugar Neste Século, da Iluminuras.Diante das mudanças da esfera pública, do crescimento das cidades e dos movimentos migratórios, que intensificaram as relações, inclusive a diversidade, Canclini afirma ter a cultura o papel de mediadora desses contatos, permeados de conflitos. "As interações não costumam se realizar de modo fácil e conciliado, hoje há cada vez menos possibilidades para a autonomia total entre as culturas", diz ao Estado. A cultura não deve ser considerada uma "atividade suntuária e suplementar da vida social e econômica". "Ela tem a ver com a organização do sentido da vida social e econômica."Nesse contexto de intercâmbios, Canclini debate os significados - em mutação - de atividades como ler, assistir a um show e navegar na internet praticadas com uma freqüência inédita pela mesma pessoa. "Meu propósito é colocar em relação essas três atividades culturais e não mais pensá-las separadamente como no passado", diz. Em Leitores, Espectadores e Internautas (tradução de Ana Goldberger, 96 págs., R$ 25), escrito em breves artigos estruturados como um hipertexto, ele reflete sobre a maneira de as pessoas se relacionarem e organizarem. "Há quem defenda estarmos vivendo um processo de transformação radical, até mais profundo do que o advento da imprensa."Canclini aborda o monopólio dos produtores de conteúdo. Ele lembra o caso da Time, empresa criadora de material escrito, que se fundiu com a Warner (audiovisual) e a AOL (digital). "Isso tem acontecido cada vez mais, e essa concepção de poder subordina o editorial a leis de crescimento próprias do setor audiovisual." Segundo Canclini, esses monopólios, como das quatro grandes gravadoras musicais (Sony, Universal, EMI e Warner), que controlam 90% do mercado mundial, é desafiado pelo mundo cibernético. Criou-se a possibilidade de comunicação mais horizontal e de questionamento dos direitos autorais. As majors já aceitam como interlocutores válidos criadores de programas de compartilhamento de arquivos como a Napster. "Vamos para a etapa em que não só música e cinema, mas o mercado editorial fará interação mais criativa e contraditória."Numa época em que os movimentos migratórios e as indústrias culturais estimulam as interações, aumenta a crítica sobre a noção de espaço na América Latina. Em Latino-Americanos À Procura de Um Lugar Neste Século (tradução de Sérgio Molina, 140 págs., R$ 35), o antropólogo pergunta o que significa ser latino-americano hoje, uma vez que "grande parte da América Latina está fora da América Latina". Não faz sentido buscar uma identidade ou um espaço físico latino-americano. As fronteiras estão mais instáveis e borradas no mundo. "A tarefa é descobrir os perfis do que se chama de espaço sociocultural da América Latina, onde se combinam identidades: européia, asiática, africana, norte-americana." Não há por que congelá-las dentro de um espaço. "A América Latina tem um capital simbólico potente, mas ele não circula nem dentro dos países latino-americanos", diz. A poderosa herança africana na região, sobretudo em termos musicais, demonstra: o hibridismo é a essência.Essas mesclas são o alvo do clássico Culturas Híbridas (tradução de Ana Regina Lessa e Heloísa Pezza Cintrão, Edusp, 416 págs., R$ 62), estudo que discute tradição e modernidade no âmbito heterogêneo da América Latina. Canclini distingue os termos "hibridação" e "interculturalidade". A primeira sugere uma combinação feliz entre elementos de distintas culturas. A segunda, um contato em que a tensão, o conflito e a discriminação têm vez. A diferença entre as duas se torna fundamental, quando línguas e religiões diversas, por exemplo, precisam se confrontar de modo mais intenso no mesmo espaço, num processo que estimula maior diversidade e que tende a aumentar nas próximas décadas. A multiculturalidade vai virar uma exceção com o passar do tempo.Para dar conta dessa situação, a tolerância - "essa virtude displicente do humanismo antigo" - não é suficiente. "A tolerância aparece como limitação, porque está ligada a uma etapa do desenvolvimento em que cada cultura teria a possibilidade de ser auto-suficiente." Essa noção é a do relativismo cultural, que diz: "és diferente, mas te perdôo." Néstor García Canclini, por meio de novas questões, abre caminho para a busca de um novo humanismo em um mundo também novo. Obras Fundamentais CULTURAS HÍBRIDAS: o estudioso argentino reflete sobre o fenômeno denominado por ele como "hibridação" cultural nos países latino-americanos. Com estilo ensaístico e abordagem interdisciplinar, ele faz um estudo empírico sobre a cultura da América Latina na pós-modernidade.LATINO-AMERICANOS À PROCURA DE UM LUGAR NESTE SÉCULO: o antropólogo lança a seguinte pergunta: "O que significa ser latino-americano?" Ele não pretende achar uma resposta, mas saber como "essa pergunta está mudando enquanto se constroem novas respostas".GLOBALIZAÇÃO IMAGINADA: Canclini investiga as mudanças nas aproximações e divergências entre Europa, EUA e AL e constata que, apesar da homogeneização na circulação de capitais e bens, as diferenças culturais continuam a emergir num contexto de intercâmbios.CONSUMIDORES E CIDADÃOS: o autor analisa as mudanças culturais na forma de fazer política diante das transformações da esfera pública. Critica o processo de globalização realizado pelo neoliberalismo que, ao tratar de diferenças multiculturais, agrava as desigualdades.

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