Um herege que não foge da fogueira

O mexicano Pedro Meyer mostra no MAC-USP 40 imagens em Uma Retrospectiva, que reúne experiências no campo digital

Simonetta Persichetti, O Estadao de S.Paulo

04 de novembro de 2008 | 00h00

Provocativo. Assim é o fotógrafo mexicano Pedro Meyer. Sempre foi. Um dos primeiros profissionais a receber de braços abertos a tecnologia digital, no início dos anos 80, foi por muito de seus pares censurados, criticado e discutido. Alguns chegaram ao cúmulo de chamá-lo de herege, como se ele estivesse discutindo ou duvidando de um dogma: a sacralidade da imagem fotográfica. Isso porque ele sempre defendeu a idéia de que toda e qualquer fotografia - manipulada ou não, é ao mesmo tempo verdade e ficção. Ele não se importou e continuou fazendo o que queria e discutindo o que achava importante para a imagem. Além de fotografar, criou vários encontros entre fotógrafos latino-americanos e antes de virar moda já tinha seu blog, o zone zero, um dos melhores quando falamos em fotografia. E quase 30 anos depois, ele conseguiu algo, no mínimo inovador: inaugurou retrospectiva de seu trabalho em 60 instituições ao redor do mundo. Em São Paulo, coube ao MAC-USP Ibirapuera - Museu de Arte Contemporânea, que com curadoria da pesquisadora Helouise Costa, abriu as portas para expor 40 imagens em Heresia - Uma Retrospectiva de Pedro Meyer. Mas não é uma simples mostra, é uma reviravolta em revelar o fazer fotográfico. Nessa exposição mundial, ele nos coloca diante da questão contemporânea, que é a redefinição de uma mostra nos tempos do digital. Para realizar essa idéia, Pedro Meyer convidou 10 curadores para que fizessem uma pré-seleção em seu arquivo de quase 300 mil imagens. As escolhidas foram disponibilizadas na rede para que cada instituição fizesse a própria escolha: "Foi muito interessante", diz Helouise Costa. "Não era um trabalho de curadoria autoral, mas uma atividade compartilhada e interativa."A curadoria paulista não se limitou a um tema específico, mas escolheu 40 imagens nas quais a dualidade e ambigüidade apresentadas estivessem evidentes. Brincadeiras ou diálogos entre o analógico e o digital, real e virtual, realidade e ficção, o pictórico e o fotográfico, o instante decisivo e a encenação: "E embora o assunto pareça já datado, essa questão de verdade e mentira da imagem é reutilizada e recontextualizada nas fotografias de Pedro Meyer", afirma Helouise em entrevista ao Estado. Com uma inteligência visual apurada, o fotógrafo demonstra que já superou as questões do hibridismo, do diálogo da fotografia com outras linguagens, da questão da unicidade da obra: "Ele deixou há muito tempo esse tema da exaltação da técnica, saiu do gueto das discussões e apresenta nova proposta estética ou imagética para a fotografia", ressalta.Quando olhamos para as imagens com certo cuidado, somos surpreendidos por algumas características que, como afirma Helouise, se apresentam como uma discussão visual: em algumas fotografias, fica clara a ampliação em jato de tinta, as marcas bem definidas não deixam dúvidas, em outras é o grão da fotografia que explode com toda sua força. Mas tudo tratado como visualidade. "Pedro Meyer dialoga com várias estéticas fotográficas nesses trabalhos. Muito com as imagens modernistas e, em alguns momentos, é possível perceber que ele brinca com o momento decisivo de Cartier-Bresson."Divertido, Meyer chamou a sua exposição de Heresias, nome que ele adotou de seus detratores. Assim como fizeram, no fim do século 19, os artistas que foram acusados pelos críticos da época de não saberem pintar, mas somente pincelar impressões nas telas, e assumiram o nome de impressionistas. Mas sua provocação vai muito além do imagético. Ao selecionar 60 instituições no mundo todo para exibir ao mesmo tempo um resumo de sua trajetória e ao colocar nas paredes dos museus cópias digitais, ele está referendando a importância de um museu: a parede museológica que confere e ainda dá importância ao que está exposto. Ao mesmo tempo, ao fazer essa rede mundial de fotografias e incluir em seu projeto vários computadores para que os curadores e os visitantes da mostra possam não só deixar seus comentários, mas também interagir com outros visitantes no mundo todo, ele cria duas redes ao mesmo tempo: a virtual dos computadores e a física das instituições: "Quando ainda estamos discutindo ou procurando uma nova aura para a fotografia, Pedro Meyer brinca com essa questão dos vintages, da obra única, da domesticação da fotografia por parte das galerias", explica Helouise. O que o fotógrafo mexicano nos propõe é uma nova reflexão e teoria a partir dessa sua mostra. Não o uso de uma nova ferramenta, mas os usos culturais dessa nova forma de entender e representar nosso imaginário, a maneira pela qual queremos contar algo, ou não: simplesmente apontar para o que vimos e nos surpreendeu, ou mesmo transformar nossos sonhos, nossas críticas, nossa reflexão em imagem. Como escreve no texto de abertura da mostra a própria Helouise: "Longe de exaltar a tecnologia em si, Meyer faz uso de seus recursos para atuar criticamente na origem do processo de construção do sentido. Ele recupera o potencial subversivo da imagem, que as vanguardas históricas souberam tão bem explorar, e aponta para a zona nebulosa daquilo que define a nossa condição humana. Talvez por isso mesmo, as imagens de Meyer sejam tão inquietantes, capazes de evidenciar a fragilidade de nossas certezas." ServiçoHeresias: Uma Retrospectiva de Pedro Meyer. MAC/USP Ibirapuera. Av. Pedro Álvares Cabral, s/n.º, portão 3 do Parque do Ibirapuera, tel. 5573-9932. Grátis. De 3.ª a dom., 10 h/18 h. Até 16/11

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.